A Corte Suprema de Cassação da Itália, última instância do Judiciário do país europeu, decidiu nesta sexta-feira (22 de maio de 2026) anular a extradição da ex-deputada federal Carla Zambelli (PL-SP) para o Brasil e determinou sua libertação imediata. A ex-parlamentar estava presa no complexo penitenciário de Rebibbia, na periferia de Roma, desde 29 de julho de 2025, quando foi capturada por meio de cooperação policial internacional envolvendo a Polícia Federal, a Interpol e agências italianas. Seis juízes da Corte de Cassação analisaram, em audiência que durou cerca de uma hora pela manhã em Roma, o recurso apresentado pela defesa contra decisão anterior da Corte de Apelação, que em março havia autorizado o envio de Zambelli ao Brasil. A decisão da Cassação reverte aquele entendimento e libera a ex-deputada, que deixou a prisão na noite de sexta-feira e gravou vídeo em frente ao presídio, dedicando a 'vitória a Deus'.
O caso ainda não está encerrado. Pelo trâmite italiano, a decisão será encaminhada ao ministro da Justiça da Itália, Carlo Nordio, integrante do partido Irmãos de Itália da primeira-ministra Giorgia Meloni, que tem 45 dias para emitir parecer favorável ou contrário à extradição. Há ainda um segundo pedido de extradição em análise, referente à condenação de Zambelli a 5 anos por porte ilegal de arma e constrangimento ilegal no episódio em que perseguiu, armada, o jornalista Luan Araújo nas ruas dos Jardins, em São Paulo, na véspera do segundo turno das eleições presidenciais de 2022. A justificativa oficial da Corte de Cassação deve ser publicada nos próximos dias.
Na cobertura de centro, veículos como Folha de S.Paulo, BBC News Brasil e g1 relataram com detalhe procedimental os argumentos das duas partes na audiência. O advogado Pieremilio Sammarco, que defende Zambelli na Itália, sustentou que há 'várias contradições e omissões na sentença da Corte de Apelação', citando a falta de verificação das condições da penitenciária feminina Colmeia, no Distrito Federal, onde a ex-deputada seria enviada caso extraditada, com questionamentos sobre o tamanho das celas e a existência de serviço sanitário adequado. Sammarco também alegou piora no estado de saúde de Zambelli, sem detalhar. O advogado Enrico Giarda, contratado pela Advocacia-Geral da União (AGU) para representar o governo brasileiro, pediu a rejeição do recurso e afirmou que 'o processo brasileiro não pode ser refeito na Itália' e que a Corte de Apelação havia examinado integralmente os argumentos técnicos da extradição.
Veículos de esquerda, como a Agência Pública, enfatizaram o impacto da decisão sobre a vítima do caso da arma e o padrão de impunidade que ela revela. O jornalista Luan Araújo, alvo da perseguição armada de 2022, lamentou a decisão e disse à reportagem que se trata de 'uma justiça que só atende aos interesses de poderosos', acrescentando que move há meses uma ação por danos morais contra Zambelli e enfrenta dificuldades financeiras para arcar com o processo, enquanto a ex-deputada 'agora está de boas'. O representante da AGU, Enrico Giarda, classificou a decisão como inesperada. A cobertura de esquerda também ressalta o histórico: Zambelli foi condenada por unanimidade pela Primeira Turma do STF em maio de 2025 a 10 anos de prisão por ter ordenado, com auxílio do hacker Walter Delgatti, a invasão do sistema do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) para inserir um mandado falso de prisão contra o ministro Alexandre de Moraes, num ataque direto a instituições republicanas.
Veículos de direita destacam a decisão como uma vitória do devido processo legal e como reconhecimento, por um tribunal europeu de última instância, da tese de perseguição política contra Zambelli. O advogado Fabio Pagnozzi, que defende a ex-deputada no Brasil, classificou em entrevista as condenações brasileiras como 'desproporcionais em questões de pena' e 'lastreadas em provas muito fracas', avaliando que o caso 'vai servir de jurisprudência para muitos outros casos de pessoas perseguidas em países estrangeiros'. A defesa também enfatiza que a Cassação acolheu argumentos sobre as condições carcerárias do presídio Colmeia e sobre vícios processuais no julgamento conduzido pelo STF, o que, para esse enquadramento, expõe fragilidades da Corte brasileira diante de um escrutínio internacional. Zambelli, em seu primeiro pronunciamento em liberdade, disse que a defesa 'conseguiu fazer o impossível' e dedicou a vitória a Deus, prometendo continuar uma 'vida de missão'.