O presidente Luiz Inácio Lula da Silva usou a inauguração da nova sede do Centro de Desenvolvimento Tecnológico em Saúde (CDTS) da Fiocruz, no Rio de Janeiro, para fazer uma cobrança pública direta ao governador em exercício do estado, o desembargador Ricardo Couto. No discurso deste sábado, 23 de maio, Lula pediu que Couto, presidente licenciado do Tribunal de Justiça do Rio, use os seis meses à frente do governo fluminense para 'prender todos os ladrões que governaram esse estado e os deputados que fazem parte de uma milícia organizada'. O presidente ainda afirmou que, se a sucessão de Cláudio Castro (PL), que renunciou para disputar o Senado, tivesse sido decidida por eleição indireta na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), 'ia vir um miliciano'.
O contexto institucional é central para entender a fala. Couto assumiu o Palácio Guanabara em março, por decisão do STF, depois que o grupo político de Castro tentou conduzir uma eleição indireta pela Alerj para escolher o sucessor. A Justiça barrou a manobra e o Supremo manteve o presidente do TJ-RJ no comando do estado, mesmo após a Alerj eleger o deputado Douglas Ruas (PL) para a presidência da Casa, cargo que estaria à frente do Judiciário na linha sucessória prevista pela Constituição estadual. Em paralelo, a gestão Couto vem revisando atos da administração Castro, que também é alvo de operação da Polícia Federal sobre o uso da máquina estadual para favorecer crimes ligados à Refit.
A cobertura de centro, exemplificada pela Folha de S.Paulo e pelo g1, relatou o episódio em registro factual: descreveu o discurso, citou o histórico de Couto, registrou o anúncio de apoio federal por meio do plano 'Brasil Contra o Crime Organizado', orçado em R$ 11 bilhões, e incluiu a defesa de Lula pela aprovação da PEC que recria o Ministério da Segurança Pública, hoje parada no Senado de Davi Alcolumbre. O g1 ainda reproduziu, na íntegra, a nota oficial da Alerj rebatendo a fala presidencial e cobrando respeito institucional ao Parlamento fluminense.
Veículos de esquerda, como Revista Fórum, deram à fala um enquadramento de enfrentamento estrutural ao bolsonarismo no Rio. Destacaram o aporte de R$ 370 milhões na nova sede do CDTS e R$ 330 milhões no Centro de Terapias CAR-T, voltado a tratamentos inovadores contra o câncer pelo SUS, combinando investimento social e segurança pública num mesmo projeto de Estado. Nesta leitura, a cobrança a Couto se inscreve numa narrativa em que o governo federal busca recuperar territórios capturados pela 'velha política' fluminense, simbolizada pelas auditorias da gestão Couto sobre o período Castro e pela investigação da PF.
Veículos de direita, como Revista Oeste e Veja, enfatizaram dois outros ângulos. Primeiro, registraram que o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, aproveitou a tribuna do evento oficial para atacar nominalmente o senador Flávio Bolsonaro (PL) e a gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro, com a Oeste destacando o ataque já no subtítulo. Segundo, ressaltaram a leitura da oposição de que o cenário sucessório no Rio configura uma 'intervenção judicial' sobre a política estadual, com o STF alterando a linha de sucessão prevista na Constituição estadual. A Alerj, em nota, afirmou que 'é inaceitável qualquer tentativa de generalizar ou criminalizar o Parlamento fluminense e seus representantes eleitos pelo povo do Rio de Janeiro' e atribuiu parte dos desafios de segurança à 'ausência de políticas nacionais eficazes de combate ao tráfico de armas, às fronteiras abertas ao crime organizado e à expansão das facções criminosas em todo o país'.
O que ainda não se sabe é como e quando se resolverá a sucessão do governo do Rio até o fim do mandato em curso. O STF ainda não definiu o método de escolha do novo governador-tampão, e a tensão institucional entre o Palácio Guanabara, o Judiciário e a Alerj segue em aberto. Também não há clareza sobre quais deputados estaduais Lula tinha em mente ao falar em 'milícia organizada' no Legislativo fluminense, nem sobre o cronograma de eventuais operações da Polícia Federal que poderiam dar substância política à cobrança feita ao governador interino.