O senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) inscreveu-se para falar na audiência pública do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos, o USTR, marcada para 6 de julho de 2026, em Washington. A audiência antecede a decisão final do governo americano sobre a aplicação de uma sobretaxa de 25% a produtos brasileiros. No documento de inscrição, o senador pediu cinco minutos, o tempo padrão, para defender a suspensão da tarifa, propor uma negociação de boa-fé e fazer uma defesa do Pix, o sistema de pagamentos brasileiro.
A cobertura de centro relatou que a tarifa decorre da conclusão da investigação da Seção 301, conduzida pelo USTR. Nessa investigação, o governo americano acusa o Brasil de impor restrições a empresas de tecnologia por meio de decisões judiciais, de favorecer empresas nacionais de pagamento eletrônico, como o Pix, em detrimento de concorrentes americanos, e de não combater suficientemente a corrupção. O relatório definitivo deve ser publicado até 15 de julho, e a decisão sobre aplicar ou não as tarifas cabe ao presidente Donald Trump. Segundo o documento de inscrição, Flávio argumentará que a tarifa, na prática, prejudicaria os exportadores brasileiros, os importadores e consumidores americanos, e a própria oposição brasileira.
O contexto que cerca a iniciativa é o ponto em que as coberturas divergem. Veículos de esquerda enfatizaram que a movimentação de Flávio é uma tentativa de se livrar da marca de traição depois que parte do clã Bolsonaro levou a disputa política doméstica para dentro do poder americano. Esses veículos lembraram que Eduardo Bolsonaro, irmão do senador, foi condenado pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal, em 16 de junho, a quatro anos e dois meses de prisão por coação no curso do processo, acusado de articular sanções dos Estados Unidos contra a economia brasileira e contra ministros do STF. Nessa leitura, o tarifaço atinge trabalhadores, cooperativas, o agronegócio e cadeias produtivas, como as do Paraná, que exportou US$ 1,587 bilhão aos Estados Unidos em 2024, e o ataque ao Pix ameaça uma infraestrutura usada por pequenos negócios e consumidores. A defesa da soberania e dos empregos é o eixo central dessa narrativa.
Veículos de direita enfatizaram que Flávio busca defender os interesses do povo brasileiro diante da ameaça tarifária e cobram a inação do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Nessa cobertura, o senador aparece propondo uma solução negociada e sustentando que existem mecanismos mais adequados que a tarifa para combater a corrupção, já que a sobretaxa penalizaria a sociedade brasileira como um todo. Ainda assim, parte dessa mesma cobertura, como a análise de um colunista de VEJA, avaliou que a iniciativa tem caráter majoritariamente político e pouca relevância técnica, com o objetivo de conter o desgaste após o encontro de Flávio com Trump em maio, em um ambiente que costuma reunir especialistas em comércio exterior e técnicos, não parlamentares.
O que ainda não se sabe é se o governo Trump aplicará efetivamente a tarifa de 25% e em que extensão, qual será o conteúdo final do relatório da Seção 301 e se a fala de Flávio terá algum efeito sobre a decisão americana. Também permanece em aberto como a Justiça tratará os recursos da defesa de Eduardo Bolsonaro contra a condenação e quais cláusulas comerciais entrarão de fato na medida final.