O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), deve manter sob sua relatoria os inquéritos que investigam Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, contrariando pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR) para que o caso fosse enviado à primeira instância. A manifestação da PGR é sigilosa, e o gabinete do ministro, procurado, não se pronunciou. Até o momento não há decisão publicada: o que existe é a avaliação predominante no gabinete do relator, apurada pela imprensa. As apurações tratam de suspeitas de tráfico de influência envolvendo órgãos da administração federal. A Polícia Federal dividiu o material em três inquéritos distintos, dois deles distribuídos a André Mendonça e um terceiro sob relatoria do ministro Flávio Dino. Quando a corporação pediu a divisão, a própria Procuradoria havia concordado com o sorteio dos procedimentos dentro do Supremo. Não há confirmação de que a PGR tenha feito pedido semelhante em relação ao inquérito que está com Flávio Dino. O núcleo da disputa é de competência, não de mérito. A Procuradoria sustenta que não há pessoas com foro por prerrogativa de função diretamente envolvidas no caso e que as investigações não guardam relação com o inquérito que apura irregularidades no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). A avaliação no gabinete de Mendonça é oposta: as conversas analisadas fariam referência a autoridades com foro, e os indícios sobre Fábio Luís teriam surgido dentro de uma investigação que, na origem, alcançava pessoas submetidas à jurisdição do tribunal. É a chamada conexão, aplicada quando os fatos estão interligados de tal forma que separá-los comprometeria a compreensão do conjunto. Entre os precedentes considerados estão os processos sobre os ataques de 8 de janeiro de 2023, em que parte dos acusados não tinha foro e ainda assim permaneceu no Supremo, e a apuração sobre ex-deputados estaduais do Rio de Janeiro suspeitos de vínculos com facções criminosas. Os dois lados da cobertura partem dos mesmos fatos e chegam a ênfases diferentes. Veículos de direita apresentaram o episódio como um enfrentamento direto entre o relator e a Procuradoria, com destaque para a recusa em soltar das mãos do tribunal um caso que atinge o entorno do presidente da República, para a divisão das apurações em três inquéritos e para as suspeitas de tráfico de influência em órgãos federais. Veículos de esquerda deram peso à fundamentação jurídica, detalharam a tese de conexão e os precedentes que a sustentam, e marcaram distância dos indícios com expressões de cautela, deslocando o foco para o alargamento da competência da Corte sobre alguém que não possui foro privilegiado. Não houve, até agora, cobertura de veículos de centro sobre o episódio; um relato de centro provavelmente se limitaria a registrar o pedido da Procuradoria, a inclinação contrária do relator e a ausência de decisão formal, sem atribuir intenção a nenhum dos dois. Muita coisa segue em aberto. Não se conhece o teor da manifestação da PGR, protegida por sigilo, nem quais autoridades com foro seriam mencionadas no material analisado. Não há informação pública sobre quais condutas concretas são atribuídas a Fábio Luís Lula da Silva, nem sobre prazo para que o relator formalize sua posição. Também não se sabe se a Procuradoria pedirá o mesmo deslocamento do inquérito que está com Flávio Dino, nem se haverá recurso ao plenário caso a competência do Supremo seja mantida.