O diretor do instituto Paraná Pesquisas, Murilo Hidalgo, afirmou que o senador Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência, leva vantagem sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em um cenário de abstenção elevada no 2º turno das eleições de 2026. A declaração foi feita em 21 de agosto de 2026, durante painel do Lide, o Grupo de Líderes Empresariais, no 25º Fórum Empresarial, realizado no Rio de Janeiro. Segundo o diretor, a segunda etapa da disputa presidencial deve registrar uma abstenção histórica.
O raciocínio apresentado tem três apoios. O primeiro é a desmotivação do eleitor. O segundo é a falta de proposta dos candidatos. O terceiro, e o mais desenvolvido na fala, é o calendário estadual: em muitos estados a eleição para governador deve terminar já no 1º turno, o que retiraria da campanha os candidatos a governo e a deputado que ajudam a movimentar as ruas. Hidalgo citou Ceará, Bahia, Pernambuco, Alagoas e Piauí como exemplos de disputas estaduais com chance de definição antecipada, e mencionou também São Paulo, maior colégio eleitoral do país, e o Rio de Janeiro. Pela estimativa que apresentou, cerca de 75% do eleitorado do Nordeste não teria motivo para voltar às urnas no 2º turno por causa da disputa estadual, o que deixaria a eleição presidencial, nas palavras dele, muito mais fria.
Dias antes, em entrevista a um programa de vídeo, o mesmo diretor havia dito que Flávio Bolsonaro vive um momento melhor que o de Lula. A explicação oferecida foi o que ele chamou de fogo cruzado sobre o presidente, em referência às apurações do escândalo do INSS que podem alcançar o filho dele. Na mesma entrevista, Hidalgo cercou a avaliação de ressalvas: disse que a eleição permanece muito equilibrada pela realidade daquele momento, que a fotografia atual não antecipa o desfecho, que a disputa será decidida na reta final do 2º turno, a partir de meados de outubro, e que uma nova informação pode agravar a situação do presidente ou deslocar a crise para o lado do senador.
As duas coberturas analisadas convergem nesses pontos e divergem na ênfase. A cobertura de centro concentrou-se na mecânica eleitoral: o local e a data da fala, o argumento sobre desmobilização por ausência de 2º turno estadual, os estados nomeados, a estimativa sobre o eleitorado do Nordeste e o registro de que um executivo do instituto AtlasIntel, Andrei Roman, participou do mesmo painel para tratar do peso da rejeição na escolha dos eleitores. Veículos de direita deram destaque à comparação direta entre os dois nomes e ao desgaste do Planalto, organizando o texto em torno da frase sobre Flávio viver um momento melhor que o de Lula e do trecho que liga esse desgaste às denúncias envolvendo o filho do presidente. Nenhum veículo de esquerda cobriu o episódio no material analisado, de modo que não há neste conjunto um contraponto que discuta o efeito social da desmobilização eleitoral nem o estágio processual das apurações citadas.
O que ainda não se sabe é considerável. Nenhuma das declarações veio acompanhada de percentuais de intenção de voto, margem de erro ou data de campo, e as falas foram avaliações do diretor do instituto, não a divulgação de um levantamento. Não se sabe qual patamar numérico de abstenção o instituto considera histórico, nem como ele se compara ao dos pleitos anteriores. Também não há, nas matérias, informação sobre em que fase estão as apurações do escândalo do INSS mencionadas como fator de desgaste, nem se existe acusação formal contra o filho do presidente. Não foi registrada reação do Planalto, do PT ou de aliados do senador às projeções apresentadas no fórum empresarial.