Os dois principais candidatos à Presidência da República fazem campanha na mesma cidade, no mesmo horário e sem se cruzar. Neste sábado, 22 de agosto, às 10h, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) realiza seu primeiro comício da campanha no Estádio Moça Bonita, em Bangu, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, enquanto o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) participa do lançamento formal da candidatura de Douglas Ruas (PL) ao governo do Estado, no Maracanãzinho, na Zona Norte. Cerca de trinta quilômetros separam os dois palcos.
Ao lado de Lula estarão o ex-prefeito Eduardo Paes (PSD), candidato ao governo fluminense, e os deputados Pedro Paulo (PSD) e Benedita da Silva (PT), postulantes ao Senado. O ato de Flávio Bolsonaro ocupa o ginásio que sediou a convenção que oficializou a candidatura de Jair Bolsonaro (PL) à reeleição em 2022. O Rio é o terceiro maior colégio eleitoral do país, responde por cerca de 8% dos votos e é o berço político do bolsonarismo.
As coberturas convergem no essencial. A campanha eleitoral começou oficialmente em 16 de agosto, e tanto Lula quanto Flávio Bolsonaro escolheram concentrar o arranque no Sudeste, região que reúne São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, soma 63,3 milhões de eleitores e onde os dois aparecem em empate técnico a dois meses do primeiro turno. Lula abriu a campanha no estádio Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, ao lado do candidato ao governo paulista, Fernando Haddad (PT), e do vice, Geraldo Alckmin (PSB), e passou por Belo Horizonte na sexta-feira, para o lançamento da candidatura de Patrus Ananias (PT) ao governo de Minas Gerais. Flávio Bolsonaro segue do Rio para a Festa do Peão de Barretos, no interior paulista.
A cobertura de centro concentrou-se na agenda e nas regras do período. Com o início oficial da campanha, ficam liberados comícios e sonorização fixa entre 8h e 24h, uso de alto-falantes entre 8h e 22h respeitada a distância mínima de 200 metros de hospitais, escolas, igrejas e sedes dos Poderes, e até dez anúncios pagos por veículo na imprensa escrita para cada candidato. A propaganda gratuita em rádio e televisão só começa em 28 de agosto, com 70 minutos diários destinados a inserções de 30 e 60 segundos.
Veículos de direita detalharam a fragilidade dos dois palanques fluminenses. Do lado governista, correntes do PT-RJ ligadas ao Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, à Democracia Socialista e ao Movimento Brasil Popular registraram em nota interna a discordância com o apoio a Pedro Paulo para a segunda vaga ao Senado, citando seu voto pelo impeachment de Dilma Rousseff, pela PEC do Teto de Gastos e pela reforma trabalhista. O PSOL lançou Mônica Benício, viúva da vereadora Marielle Franco, que rebate o argumento do voto útil com a pesquisa Datafolha divulgada em 21 de agosto: Benedita da Silva lidera com 15%, Carlos Jordy e Carlos Portinho têm 8%, e Benício, Marcelo Crivella e Pedro Paulo aparecem com 6%. Do lado do PL, a articulação original ruiu: Cláudio Castro deixou o Palácio Guanabara em março e desistiu do Senado após ser alvo da Polícia Federal por relação com o banqueiro Daniel Vorcaro; Rodrigo Bacellar foi preso e perdeu os direitos políticos; e Márcio Canella foi preso em flagrante em 7 de julho e também abandonou a disputa. A mesma cobertura registra que o comício de abertura de Flávio Bolsonaro em Copacabana teve público estimado em 8,9 mil pessoas por pesquisadores da USP, o que transforma a lotação do Maracanãzinho em teste de mobilização.
Nenhum veículo de esquerda havia publicado sobre os dois atos até o fechamento desta edição. A leitura provável desse campo, a partir dos mesmos fatos, enfatizaria a escolha de Bangu como aposta na periferia carioca e trataria a resistência dos movimentos sociais à chapa do Senado como disputa programática legítima, e não como fissura eleitoral.
O que ainda não se sabe é o principal: nenhuma das coberturas mede o público efetivo dos dois comícios, que só será conhecido depois dos eventos. Também não há números divulgados da disputa presidencial no Rio, apenas a menção a empate técnico no conjunto do Sudeste, e não está definido se o PT do Rio manterá o apoio formal a Pedro Paulo ou acomodará o apoio velado a Mônica Benício até a votação.