Os dois principais candidatos ao governo de São Paulo protocolaram no Tribunal Regional Eleitoral seus planos de governo com a segurança pública no primeiro eixo. O governador Tarcísio de Freitas, do Republicanos, entregou em 17 de agosto um documento de 68 páginas no qual as menções ao combate ao crime saltaram das 23 do plano de 2022 para 54. O ex-ministro Fernando Haddad, do PT, anexou à sua candidatura um texto de 15 páginas, apresentado pela campanha como um conjunto de diretrizes que serão detalhadas por área ao longo da disputa.
A peça central da proposta do governador é o Centro de Inteligência e Inovação, o SP CIN, que transformaria o atual Centro de Comando e Controle em uma estrutura de monitoramento 24 horas integrando as polícias Civil e Militar, o Corpo de Bombeiros, as defesas civis e as guardas municipais. O plano prevê ampliar em 30% o programa Muralha Paulista, chegar a 160 mil câmeras interligadas até 2028, contratar 16,2 mil policiais e aplicar inteligência artificial no cruzamento de dados. Haddad batizou seu programa de SP Protege, sustentado no lema Impunidade Zero, e propõe uma Agência Estadual Antifacção subordinada ao governador, reunindo polícias, Receita Estadual, Ministério Público, Banco Central e o Coaf, órgão federal de inteligência financeira. O candidato do PT também defende gravação contínua das câmeras corporais, um placar trimestral de esclarecimento de crimes e Delegacias de Defesa da Mulher abertas 24 horas.
Toda a cobertura converge em um ponto: a segurança é o centro da campanha paulista. Pesquisa Quaest ouviu 1.650 pessoas no mês passado e registrou a violência como principal preocupação de 34% dos entrevistados, enquanto levantamento Datafolha do início de julho colocou segurança e saúde empatadas no topo, com 27%. Há convergência também entre os próprios planos: os dois preveem monitoramento eletrônico de agressores em casos de violência doméstica, aplicativo de acionamento de emergência para mulheres, integração das bases de dados policiais, inteligência artificial como eixo transversal e mecanismos de rastreamento e devolução de celulares roubados.
A cobertura de centro relatou o contraste em termos de gestão e de números. Registrou que o governo estadual destinou R$ 2 bilhões a investimentos em segurança desde 2023, contra R$ 3,8 bilhões nos três anos anteriores em valores corrigidos pela inflação, e que o governador enfrentou críticas das polícias Civil e Penal quanto a estruturas e valorização profissional. Essa mesma cobertura reproduziu as cobranças feitas por Haddad em sabatina de rádio, quando o candidato afirmou que a letalidade policial cresceu até 80% na atual gestão, que o Muralha Paulista consumiu cerca de R$ 600 milhões sem avanço concreto e que São Paulo investiga 5% dos crimes registrados e esclarece a autoria de 31% dos homicídios. Na mesma entrevista, o petista disse não descartar a reestatização da Sabesp, embora a considere difícil e demorada, e prometeu um pente-fino no contrato.
Veículos de direita enfatizaram o argumento da continuidade. Apresentaram o plano do governador como execução já em curso daquilo que o adversário promete e destacaram as mais de 540 operações contra o crime organizado desde 2023, o prejuízo estimado de R$ 3,4 bilhões às facções e a redução continuada dos indicadores de furto, roubo e homicídio. Essa cobertura também contrastou a extensão dos documentos, 68 páginas contra 15, e observou que o texto do PT dedica boa parte do espaço à crítica do governo atual. Já veículos de esquerda não produziram cobertura própria desta disputa de planos no conjunto analisado. O ângulo que essa leitura costuma sublinhar, a letalidade policial, a transparência das estatísticas criminais e a valorização salarial dos agentes, apareceu apenas pela voz do candidato do PT, sem desenvolvimento editorial próprio.
O que ainda não se sabe é como cada projeto será pago: nenhum dos documentos apresenta custo estimado, fonte de recursos ou cronograma orçamentário. Segue em aberto também a divergência sobre os próprios dados, já que os percentuais de esclarecimento de crimes citados pelas duas campanhas não coincidem e o aumento de 80% na letalidade policial atribuído à gestão atual não foi confrontado com série oficial. O plano do candidato do PT ainda não foi detalhado por área, como anunciou a campanha, e a proposta do governador não fixa metas numéricas para programas já existentes, como o Recupera SP, que recuperou R$ 136 milhões desde a criação.