A prefeita de Frei Gaspar, município do Vale do Mucuri, em Minas Gerais, Jackeliny Pereira do Nascimento, filiada ao Partido dos Trabalhadores, declarou apoio ao senador Cleitinho Azevedo, do Republicanos, na disputa pelo governo mineiro deste ano. O gesto contraria o palanque oficial da própria legenda no estado, encabeçado pelo deputado federal Patrus Ananias, ex-prefeito de Belo Horizonte. Depois de ser cobrada publicamente pela presidente estadual do partido, a deputada Leninha, a prefeita não recuou: voltou a divulgar o candidato do Republicanos nas redes sociais no mesmo dia.
O episódio começou com uma montagem publicada pela prefeita, sob o título "Esse é o nosso time!". A imagem reúne o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, candidato à reeleição, o próprio Cleitinho Azevedo ao governo estadual, o deputado federal Euclydes Pettersen, do Republicanos, Marcelo Aro, do Progressistas, e Marília Campos, do PT, ambos ao Senado, e o deputado estadual Neilando Pimenta, do Republicanos. A peça traz os números de urna de cada nome e a legenda "É gente cuidando de gente, é o time do povo". Patrus Ananias, o candidato do PT ao governo de Minas, ficou de fora da composição.
A cobertura de centro relatou o desdobramento com detalhe: Leninha questionou a escolha nos comentários da publicação e, em seguida, afirmou em nota que a direção estadual vai avaliar se a conduta configura infração ao estatuto da legenda e se há cabimento para penalidade. Horas depois da manifestação, a prefeita reproduziu material de campanha do Republicanos com a mensagem "Vote 10!" e compartilhou um vídeo em que o senador, durante debate eleitoral, se apresenta como trabalhador e verdureiro e promete reduzir despesas da população com energia, água e IPVA. Ela também comemorou o alcance da montagem original, que segundo imagem divulgada por ela mesma chegou a 61 mil visualizações.
Os veículos de direita concentraram o relato no ângulo disciplinar e no desgaste interno do partido, com ênfase na apuração aberta pelo diretório estadual e na possibilidade de advertência ou de outra penalidade prevista nas regras internas. Nessa leitura, o caso mede a distância entre a cúpula petista e uma prefeitura de município pequeno, e o apelo eleitoral do senador aparece como explicação para a adesão da gestora. Uma das reportagens desse campo, porém, deixou de registrar que a prefeita reafirmou o apoio depois da cobrança, o que muda o desfecho do episódio.
Nenhum veículo de esquerda cobriu o caso até o fechamento desta análise, e é justamente aí que está o ponto cego. O ângulo ausente é o da política municipal do interior mineiro, em que alianças se formam por necessidade administrativa e não por identidade programática, e o da assimetria de exposição entre um senador com forte presença em redes e um candidato lançado em julho. Vale notar que a prefeita manteve Lula e Marília Campos na sua composição, ou seja, a divergência declarada é com o palanque estadual, não com o projeto nacional da legenda.
A cronologia ajuda a situar o conflito. Patrus Ananias confirmou a pré-candidatura em 20 de julho, em vídeo nas redes sociais, por indicação do presidente Lula, depois de meses de espera por uma definição do senador Rodrigo Pacheco, que optou por encerrar a vida pública. O nome preferido inicialmente era o de Marília Campos, ex-prefeita de Contagem, que manteve a candidatura ao Senado. Cleitinho Azevedo, por sua vez, já havia marcado distância do governo federal: em junho de 2025, ao pedir que o presidente vetasse o aumento de cadeiras na Câmara, afirmou que não é aliado de Lula, mas do povo.
O que ainda não se sabe é o essencial. Não há informação sobre o rito, o prazo ou o dispositivo estatutário específico que embasaria eventual punição, nem sobre a chance concreta de expulsão. Não se sabe se outros gestores petistas em Minas seguem o mesmo caminho, se a direção nacional do partido vai se manifestar, e tampouco houve pronunciamento do senador apoiado ou do Republicanos sobre o apoio recebido de uma filiada ao PT.