O presidente nacional do Partido Liberal, Valdemar Costa Neto, afirmou que a sigla pode "perder a eleição" deste ano caso o desentendimento entre a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e o pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro não seja resolvido. A declaração foi dada em entrevista ao programa Gaúcha Zero Hora, na noite de quinta-feira, 25 de junho. "Nós temos que acertar isso aí. Porque se não acertar isso aí, nós já vamos sair perdendo em casa", disse o dirigente.
O atrito veio a público depois que Michelle Bolsonaro publicou dois vídeos em suas redes sociais afirmando ter recebido uma "punhalada" do enteado. Nas gravações, ela disse ter sido tratada com rispidez e desrespeito por telefone. "Ele disse que seria melhor eu ficar fora das decisões do partido. Disse que eu havia chegado ontem e não entendia nada de política", relatou. Segundo a ex-primeira-dama, diante da situação ela decidiu se recolher.
O estopim da divergência foi o apoio do PL à candidatura de Ciro Gomes, hoje no PSDB, ao governo do Ceará, aliança criticada publicamente por Michelle. Valdemar defendeu o acordo com argumentos de cálculo eleitoral. "O Ciro briga até com o irmão, briga com a família toda. Ele ataca todo mundo, mas é o único que tem chances de vencer o PT. Se nós não formos com ele, o governador do Ceará vai ser o PT. Se nós formos com ele, ele ganha a eleição", afirmou. O presidente do partido também fez questão de elogiar a ex-primeira-dama: "Michelle tem um preço pra nós que... O que ela fez pelo PL Mulher no Brasil não tem preço".
A cobertura de centro, representada pela CNN Brasil, relatou os fatos de forma factual, atribuindo cada fala aos seus autores e acrescentando contexto: registra que Flávio Bolsonaro teria pedido desculpas a Michelle e feito um convite à "união de forças", além de lembrar a confiança de Valdemar na entrada da ex-primeira-dama na campanha do enteado. Veículos de direita, por sua vez, enfatizaram a centralidade de Michelle no campo bolsonarista e o peso de seu trabalho junto ao eleitorado feminino, lendo a crise como um ruído familiar a ser superado em nome da unidade contra o PT. Uma leitura à esquerda do mesmo episódio tende a destacar como a disputa expõe o personalismo e a concentração de poder em torno do clã Bolsonaro, com o partido orientado mais por arranjos familiares e pela lógica do antipetismo do que por um projeto programático coletivo.
Os três enquadramentos convergem em um ponto: a divisão interna é real e tem potencial de afetar o desempenho eleitoral do PL em 2026, ano em que Flávio Bolsonaro se coloca como pré-candidato à Presidência. O que ainda não se sabe é se o pedido de desculpas de Flávio será suficiente para reconciliar os dois lados, quais serão os termos definitivos do acordo do PL com Ciro Gomes no Ceará e se Michelle voltará a participar das decisões e da campanha do partido.