O presidente Luiz Inácio Lula da Silva telefonou ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na manhã de sexta-feira, 21 de agosto, em conversa de uma hora e vinte minutos. A iniciativa partiu do lado brasileiro e a pauta apresentada por Lula tinha três pontos: o tarifaço aplicado a produtos do Brasil, o combate ao crime organizado e os conflitos na Ucrânia e no Irã. Horas depois, o representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, procurou o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, para marcar uma reunião por videoconferência já na semana seguinte, sem data fechada.
A cobertura de centro relatou os elementos que ninguém contesta. A ligação foi a terceira entre os dois presidentes desde outubro e a mais longa até agora. Segundo a Secretaria de Comunicação Social da Presidência, transcorreu em tom amistoso e cordial. Lula afirmou que as alegações usadas para justificar a taxação, entre elas desmatamento, propriedade intelectual, combate à corrupção, Pix, etanol e importação de produtos com trabalho forçado, são infundadas. Trump, de acordo com a nota oficial, concordou com a necessidade de preservar vínculos comerciais fortes e propôs que as equipes voltassem a se reunir o mais rápido possível. As tarifas hoje somam até 37,5%: uma alíquota de 25% específica ao Brasil e outra de 12,5% aplicada em conjunto com outros 59 países, com exceções para parte da pauta exportadora. A sobretaxa de 25% entrou em vigor em 22 de julho e atinge 15% do volume exportado aos Estados Unidos em 2025, o equivalente a US$ 5,8 bilhões, com impacto concentrado em madeira, móveis, máquinas e equipamentos, calçados, produtos cerâmicos e açúcar.
Veículos de esquerda enfatizaram a dimensão política da taxação. Nessa leitura, os argumentos apresentados por Washington já foram rebatidos ponto a ponto pelo governo brasileiro, e o que sustenta a sobretaxa é pressão de adversários internos do presidente junto ao governo americano, com menção nominal a Eduardo Bolsonaro e Flávio Bolsonaro. O mesmo enquadramento destaca a resposta de Lula no tema da segurança: facções criminosas exercem terror cotidiano sobre populações carentes, mas não se confundem com organizações terroristas, e o país teria instrumentos próprios para enfrentá-las, sem necessidade de classificação especial. O Palácio do Planalto citou a apreensão de cerca de R$ 17 bilhões, a Lei Antifacção e o plano de transformar 138 presídios em unidades de segurança máxima.
A cobertura de centro deu peso maior ao cálculo econômico e ao calendário. Um especialista em comércio exterior ouvido por essa parte da imprensa avaliou que o timing da ligação foi favorável porque veio logo depois da abertura, pelo Brasil, do processo de reciprocidade, e mostrou que o país não abandonou a negociação. Ainda assim, ele não espera avanço relevante antes de novembro, já que os dois líderes estão voltados para eleições, as de meio de mandato nos Estados Unidos e a presidencial brasileira. O desfecho mais provável, nessa avaliação, não seria a retirada integral dos 25%, mas a entrada de mais produtos na lista de exceções, como máquinas, equipamentos e calçados. A Câmara Americana de Comércio para o Brasil classificou a disposição de retomar o diálogo como muito positiva e pediu soluções que reduzam barreiras e tragam previsibilidade às empresas. No recorte analisado, veículos de direita ainda não haviam publicado cobertura própria do episódio, o que deixa sem contraponto conservador tanto a leitura sobre a origem das tarifas quanto a avaliação do resultado da conversa.
As eleições brasileiras apareceram de forma lateral. Segundo relatos de quem acompanhou a ligação, Trump perguntou de maneira informal como andavam as coisas no Brasil, Lula respondeu que há muitos candidatos e que o sistema eleitoral é confiável, e o americano afirmou que os Estados Unidos não vão se envolver no pleito.
O que ainda não se sabe é considerável. Não há data definida para a videoconferência entre o ministro brasileiro e o representante americano, nem definição sobre quem representará o Brasil nos encontros ligados ao G20 nos Estados Unidos. Não foi discutido se o governo americano reconhecerá o resultado da eleição brasileira. Temas travados, como a autorização para o novo embaixador americano assumir o posto em Brasília, ficaram de fora. E não está claro se o processo de reciprocidade aberto pelo Brasil seguirá adiante ou permanecerá suspenso enquanto a negociação avança.