O governo da Bolívia reduziu de forma significativa o número de bloqueios nas estradas do país neste fim de semana, depois de decretar um estado de exceção e mobilizar policiais e militares para restabelecer a circulação de pessoas e mercadorias. Os pontos de interdição caíram de cerca de 50 para 28 num único domingo, e caminhões carregados de gasolina e diesel voltaram a trafegar pelos Andes em direção a La Paz, que sofria forte escassez de produtos após sete semanas de protestos contra a administração do presidente de centro-direita Rodrigo Paz.
O estado de exceção, aprovado pelo Parlamento, autoriza a mobilização das Forças Armadas e tem validade de 90 dias. Com esse respaldo, equipes do governo reabriram corredores considerados estratégicos em departamentos como La Paz, Cochabamba, Potosí e Santa Cruz. Nesta última região, um acordo firmado com representantes locais permitiu retomar o fluxo de produtos agrícolas e de carne. Ainda assim, treze trechos permaneciam bloqueados em quatro departamentos, sobretudo em Cochabamba, La Paz, Oruro e Santa Cruz.
A cobertura de centro, ancorada num despacho da agência AFP, relatou com paridade de fontes que a crise tem origem econômica. Trata-se da pior recessão boliviana em 40 anos, agravada por cortes em subsídios a combustíveis, por uma lei sobre terras e pela venda de gasolina de má qualidade que danificou milhares de veículos. As manifestações foram conduzidas por agricultores, indígenas, mineiros e trabalhadores, e parte delas seguiu mesmo após o governo fechar um acordo com a majoritária Central Obrera Boliviana.
Veículos de esquerda destacaram a dimensão social do conflito, lembrando que a revolta nasceu entre trabalhadores, agricultores e indígenas atingidos diretamente pela crise, e enfatizaram que Paz proibiu manifestações e militarizou a resposta a um problema de origem econômica. Essa cobertura também sublinhou que o presidente recebeu forte apoio dos Estados Unidos e de governos conservadores da região, contexto que consideram relevante para interpretar o desfecho do impasse.
Veículos de direita enfatizaram a restauração da ordem e do abastecimento, apresentando a ação do governo como uma ofensiva necessária para recuperar o controle das rodovias e proteger empresas, transportadores e cidadãos privados de combustíveis, alimentos e remédios. Nessa leitura, o respaldo legal do Parlamento e os acordos com lideranças locais aparecem como o caminho legítimo para encerrar o caos logístico.
Um ponto de tensão atravessa as duas narrativas: o governo Paz acusa o ex-presidente Evo Morales de liderar os protestos com financiamento do narcotráfico, sem apresentar provas. Morales, refugiado na região do Chapare após uma ordem de prisão por um caso de tráfico envolvendo uma menor, denuncia o episódio como perseguição política. Paz não descarta sua detenção. O Brasil também entrou na história: um avião KC-390 da Força Aérea Brasileira transportou 21 toneladas de alimentos ao país vizinho como ajuda humanitária.
O que ainda não se sabe é se a trégua nas estradas será duradoura, já que focos de resistência permanecem ativos, e se as causas econômicas que detonaram a revolta, a escassez de combustíveis e a inflação serão enfrentadas além da reabertura das vias. Tampouco está claro se o governo avançará para deter Morales e quais seriam as consequências políticas dessa decisão.