O governo dos Estados Unidos anunciou na terça-feira, 4 de agosto de 2026, a revogação do visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti. A medida não configura expulsão: segundo o Departamento de Estado americano, a diplomata poderá permanecer em território dos Estados Unidos, mas ficará sem visto válido e, na prática, impedida de exercer normalmente suas funções à frente da missão brasileira. O governo brasileiro classificou a decisão como uma escalada deliberada de ações hostis.
Washington condicionou a reversão da medida a uma contrapartida explícita: a concessão, por parte do Brasil, do aval para que Daniel Perez assuma o posto de embaixador dos Estados Unidos em Brasília. Esse aval, conhecido no jargão diplomático como agrément, é o consentimento formal do país que recebe um chefe de missão estrangeira. Até o anúncio, o governo brasileiro não havia se pronunciado sobre a aprovação. A decisão americana veio ainda cerca de dez dias depois de o Itamaraty negar visto a funcionários dos Estados Unidos que pretendiam vir ao país para questionar as eleições brasileiras.
O caráter inédito do episódio está no instrumento escolhido. Tradicionalmente, a revogação de visto é tratada pelas autoridades americanas como medida acessória à declaração de persona non grata, e não como recurso autônomo. Persona non grata é a fórmula diplomática usada para informar que um representante estrangeiro não é mais bem-vindo; não implica sanção civil ou criminal, embora seu efeito prático seja o afastamento. Essa declaração não foi acionada contra a embaixadora brasileira. O único precedente comparável entre os dois países remonta a 1847, na chamada questão Wise, quando o Império declarou persona non grata o representante americano no Rio de Janeiro, então capital, após um impasse sobre a prisão de marinheiros dos Estados Unidos e sobre a cobrança de reparações. Desde então, nenhum dos dois governos havia voltado a agir contra o chefe da missão diplomática do outro.
Há convergência entre as coberturas quanto ao encadeamento dos fatos. A relação bilateral vem se deteriorando desde maio, após a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Washington. No período, o governo americano recebeu no Salão Oval o senador Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência, manteve interlocução com o deputado Eduardo Bolsonaro, que obteve green card concedido pelo governo dos Estados Unidos, designou facções criminosas brasileiras como organizações terroristas e anunciou um novo tarifaço sobre produtos brasileiros. Ao justificar as tarifas, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, afirmou que as negociações fracassaram porque o governo brasileiro não teria negociado de boa-fé. O Itamaraty respondeu classificando a manifestação como ataque grosseiro e arrogante.
As ênfases variam conforme o campo editorial. Veículos de direita destacaram a dimensão de crise sem precedentes e o peso das decisões recentes do Itamaraty na cadeia de retaliações, incluindo a negativa de vistos a funcionários americanos. A cobertura de centro concentrou-se na cronologia, na explicação técnica dos institutos diplomáticos envolvidos e no contexto regional, marcado pelo avanço de governos e lideranças de direita na América Latina após resultados eleitorais no Chile, no Peru e na Colômbia. Veículos de esquerda ainda não haviam publicado sobre o episódio no conjunto de fontes analisado; a leitura provável desse campo, a partir dos mesmos fatos, enfatizaria a soberania nacional e a pressão externa sobre o processo eleitoral brasileiro.
O que ainda não se sabe é o desfecho imediato. Não há definição sobre se o governo brasileiro concederá o agrément a Daniel Perez, nem prazo para essa decisão. Também não está claro se os Estados Unidos avançarão para a declaração formal de persona non grata, qual será a resposta prática do Itamaraty e como a embaixada brasileira em Washington funcionará enquanto a titular estiver sem visto válido. Por fim, permanece em aberto o efeito da crise sobre o tarifaço, cuja perspectiva de reversão por negociação, segundo as coberturas, segue reduzida.