Um relatório divulgado na terça-feira por uma corretora de investimentos ampliou a discussão sobre o El Niño no Brasil. Segundo o documento, os efeitos do fenômeno climático vão muito além do preço da comida e devem atingir também a geração de energia, o transporte, o varejo e o setor financeiro. O governo federal, por sua vez, já identificou riscos de quebra nas safras de arroz e milho e se prepara para acionar usinas termelétricas, a fim de compensar uma eventual redução na produção das hidrelétricas. O custo estimado dessas medidas é de cerca de R$ 1,3 bilhão.
A cobertura de centro relatou os números de forma factual. A inflação de alimentos in natura poderia atingir um pico de cerca de 20% no segundo trimestre de 2027, antes de recuar para perto de 5% até o fim de 2028. Para 2026, o fenômeno pode acrescentar 0,35 ponto percentual ao IPCA, o índice oficial de preços, sendo 2,3 pontos percentuais na alimentação dentro de casa. A produtividade média das lavouras pode cair cerca de 3% na comparação com um cenário sem anomalia climática.
Os dois lados da cobertura convergem sobre o diagnóstico central: o clima vai pressionar alimentos e energia, e a resposta do governo terá um custo bilionário. No setor elétrico, temperaturas mais altas elevam o consumo, sobretudo pelo uso de ar-condicionado, e há risco de alta nos preços no terceiro e no quarto trimestres de 2026. O relatório lembra ainda que, historicamente, é o volume de energia armazenada nos reservatórios, e não a intensidade do fenômeno, que costuma determinar os preços.
Os enquadramentos, porém, tendem a divergir. Veículos de esquerda enfatizaram o peso da alta dos alimentos sobre as famílias de baixa renda e a importância do planejamento estatal, tanto na energia quanto na proteção a pequenos produtores expostos a choques de câmbio e de commodities. Veículos de direita, embora ausentes desta cobertura, provavelmente destacariam o custo fiscal de R$ 1,3 bilhão da intervenção num cenário de juros altos, além do papel dos sinais de mercado e da observação, presente no próprio relatório, de que câmbio, diesel e fertilizantes costumam pesar mais do que o clima na formação dos preços.
Há impactos setoriais adicionais. No varejo, o efeito esperado é médio, reflexo indireto da inflação de alimentos que reduz o consumo de outros itens. O clima mais seco no Norte ameaça a navegabilidade dos rios e, com isso, o transporte de grãos. No setor financeiro, carteiras concentradas em pecuária, milho e soja ficam mais vulneráveis à volatilidade da produção.
O que ainda não se sabe é a intensidade final do fenômeno e o momento exato de seu pico, além de como o câmbio, o diesel e os fertilizantes vão se comportar, fatores que, segundo os analistas, podem superar o efeito puramente climático sobre os preços.