Os Estados Unidos e o Paraguai assinaram na terça-feira, 4 de agosto de 2026, em Washington, um Memorando de Entendimento para Cooperação Estratégica em Energia Nuclear Civil. O documento foi firmado pelo secretário de Estado americano, Marco Rubio, e pelo ministro das Relações Exteriores do Paraguai, Rubén Ramírez, na sede do Departamento de Estado, com a presença do vice-presidente paraguaio, Pedro Alliana.
O entendimento pertence à categoria conhecida como Acordo 123, em referência à seção da Lei de Energia Atômica dos Estados Unidos, aprovada em 1954. Essa seção autoriza o fornecimento de tecnologia nuclear para fins civis, energéticos ou científicos, desde que o país receptor cumpra os padrões da Agência Internacional de Energia Atômica, a AIEA. Em contrapartida, Washington preserva o direito de monitorar o material entregue para impedir que ele seja desviado para uso militar. Desde 1954, os Estados Unidos assinaram entendimentos semelhantes com mais de 25 países, entre eles Brasil, Argentina e México.
Toda a cobertura converge sobre o conteúdo prático do memorando: intercâmbio técnico, capacitação de profissionais, fortalecimento da regulação do setor nuclear paraguaio e estudos sobre aplicações da energia nuclear em medicina, agricultura, indústria e geração de eletricidade. Há convergência também sobre o ponto de partida do país vizinho: o Paraguai não possui usinas nucleares e afirma buscar ampliar sua capacidade tecnológica e diversificar suas fontes de energia no longo prazo. E há convergência sobre a fala central de Rubio, de que os laços entre os dois países sempre foram fortes e agora estão ainda mais fortes.
A divergência aparece no enquadramento. A cobertura de centro relatou o ato de forma protocolar e o situou no contexto político da região: registrou a avaliação de Rubio de que a relação bilateral cresceu de forma extraordinária no último ano e meio, desde o retorno de Donald Trump à Casa Branca, e descreveu a aproximação entre o governo conservador paraguaio, no poder desde 2023, e a administração republicana como parte de uma onda de governos de direita na América Latina. Essa cobertura acrescentou ainda que os dois países pediram uma reunião extraordinária do Conselho Permanente da Organização dos Estados Americanos sobre a Nicarágua, e foi a que deu mais destaque à cláusula de monitoramento americano sobre o material nuclear.
Veículos de direita enfatizaram o ganho paraguaio e o caráter pacífico da parceria. Trataram o memorando como avanço de segurança energética e de acesso a conhecimento técnico, treinamento e oportunidades de investimento, e o inseriram num movimento mais amplo de engajamento dos Estados Unidos na América do Sul em infraestrutura, energia e segurança. Nessa cobertura, a intenção declarada de tornar a relação permanente, acima de mudanças de governo, aparece como sinal de previsibilidade institucional. Um dos textos, porém, não menciona o direito de fiscalização mantido por Washington, e apoia parte da análise em avaliações atribuídas genericamente a analistas, sem identificá-los.
Veículos de esquerda não registraram o episódio no conjunto de matérias reunido, o que configura um ponto cego de cobertura. O ângulo ausente é justamente o do custo político do arranjo: quem fiscaliza a tecnologia entregue, que grau de dependência externa ele cria para um país que não tem parque nuclear, e em que medida a intensificação da relação responde à afinidade ideológica entre as duas administrações. Sem essa cobertura, o debate sobre soberania tecnológica fica de fora do noticiário disponível.
O que ainda não se sabe é quase tudo o que transforma um memorando em política pública. Nenhuma das matérias informa valores envolvidos, cronograma de execução, etapas regulatórias no Paraguai ou se o texto precisará de aprovação parlamentar em algum dos dois países. Também não há indicação de quais empresas ou instituições participariam da transferência de tecnologia, nem avaliação independente sobre prazos realistas para que o país vizinho desenvolva capacidade própria no setor.