O Partido dos Trabalhadores avalia um nome inesperado para representar o palanque do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no governo de Minas Gerais em 2026: o ex-vereador de Belo Horizonte Gabriel Azevedo, hoje no MDB. Ex-presidente da Câmara Municipal da capital mineira entre o início de 2023 e o fim de 2024, Azevedo carrega no histórico uma série de embates com o próprio PT, entre eles a assinatura de um pedido de impeachment da então presidente Dilma Rousseff, em 2016.
A trajetória política de Azevedo começou cedo. Aos 19 anos, em 2005, ele se filiou ao PSDB. Pouco depois criou a chamada Turma do Chapéu, movimento da juventude tucana que buscava modernizar a militância e que se engajou nas campanhas de Antonio Anastasia ao governo de Minas e de Aécio Neves ao Senado, em 2010. Em 2016, quando Dilma tentou nomear Lula para a Casa Civil, medida vista por opositores como tentativa de garantir foro privilegiado ao ex-presidente, Azevedo, que é advogado, apresentou o pedido de impeachment contra a petista.
A cobertura de centro relatou de forma factual a negociação e as falas dos protagonistas. O presidente nacional do PT, Edinho Silva, confirmou as conversas em entrevista ao Valor. Afirmou que o partido dialoga com Azevedo, liderança do MDB, e mantém alianças com a sigla em estados como Alagoas e Pará, ao mesmo tempo em que conversa com o PSB. Para reduzir a resistência interna, o pré-candidato relativiza o passado e cita o exemplo de Geraldo Alckmin, antigo adversário de Lula na eleição de 2006 e hoje vice-presidente da República. Disse Azevedo: nao faco politica pelo retrovisor. Ele também lembra que pediu o impeachment de Jair Bolsonaro e que foi expulso do antigo partido, o Patriota, por criticá-lo.
Veículos de direita enfatizaram o ângulo do pragmatismo e da flexibilidade ideológica do PT, que cogita abraçar um político que ajudou a derrubar Dilma e fez carreira na oposição. Para essa leitura, a movimentação expõe a fragilidade do partido no segundo maior colégio eleitoral do país, sem quadros próprios viáveis, e revela alianças de conveniência típicas do calendário eleitoral.
Veículos de esquerda, por sua vez, tendem a destacar o dilema entre coerência programática e a necessidade de montar um palanque amplo para barrar a direita em Minas. Sob esse prisma, a resistência da direção estadual do PT ao ex-tucano é compreensível diante da memória do impeachment de Dilma, tratado pela militância como golpe parlamentar, enquanto os defensores da aliança recorrem ao precedente de Alckmin para justificar a reconciliação.
Nos bastidores, quem apoia a parceria lembra que o senador Rodrigo Pacheco, do PSB e nome preferido de Lula para a disputa, também apoiou o impeachment de Dilma, e que Pedro Rousseff, vereador e sobrinho-neto da ex-presidente, é hoje entusiasta do apoio. A principal defensora da aliança é a ex-prefeita de Contagem Marília Campos, pré-candidata ao Senado, que teme ser convocada para disputar o governo caso o PT opte por candidatura própria.
Com a desistência definitiva de Pacheco a poucos meses da eleição, o PT corre contra o tempo. Edinho Silva sinalizou que a decisão tende a ser batida até a próxima semana. Além de Azevedo, o partido estuda apoiar um nome do PSB, como o ex-presidente da Fiesp Josué Gomes ou o ex-procurador-geral de Justiça Jarbas Soares Jr., ou ainda lançar candidatura própria.
O que ainda não se sabe é o desfecho da negociação: o PT mineiro não definiu se aposta em Azevedo, em um nome do PSB ou em candidatura própria, e não estão detalhadas as condições que o ex-tucano exigiria nem como a direção estadual resistente reagiria a uma eventual decisão favorável ao seu nome.