O Supremo Tribunal Federal centralizou no gabinete do ministro André Mendonça a apuração sobre o financiamento do filme Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro. A decisão foi tomada pelo presidente da Corte, Edson Fachin, que aplicou o critério de prevenção para reunir sob um mesmo relator os processos considerados conexos, incluindo os que envolvem o Banco Master e o banqueiro Daniel Vorcaro.
O caso nasceu de uma notícia-crime apresentada pelo deputado Lindbergh Farias, do PT do Rio de Janeiro. Segundo o parlamentar, há um áudio em que o senador Flávio Bolsonaro pede repasses de dinheiro a Daniel Vorcaro para bancar a produção do longa. O documento também menciona o próprio ex-presidente Jair Bolsonaro e o ex-deputado Eduardo Bolsonaro. O pedido foi registrado pelo STF com sigilo nível 3, um dos mais rígidos da Corte.
A cobertura de centro relatou o trajeto processual em detalhe. A petição foi inicialmente juntada a um inquérito sob relatoria de Alexandre de Moraes, que mandou separar o material e remeteu o caso à Presidência do tribunal. A área técnica identificou petições já distribuídas a Mendonça por prevenção, e a Procuradoria-Geral da República viu ligação direta com a investigação Compliance Zero, que mira suspeitas em torno do Banco Master. Com a relatoria definida, Mendonça deve encaminhar o caso à PGR na semana de 28 de junho de 2026, quando o Ministério Público Federal decidirá se pede a abertura de inquérito, sugere diligências ou recomenda o arquivamento.
Veículos de direita enfatizaram um ângulo distinto: o recurso do próprio Lindbergh Farias para tirar Mendonça da relatoria. Em agravo regimental, o deputado sustenta que Fachin não apresentou elementos objetivos para justificar a conexão entre os processos e pede que o caso permaneça com o ministro Flávio Dino, relator de uma ação sobre emendas parlamentares destinadas a ONGs ligadas à produtora do filme. Nessa leitura, ganha relevo a defesa dos investigados: Flávio Bolsonaro afirma ter buscado apenas patrocínio privado, atividade que considera lícita, e Eduardo Bolsonaro nega as acusações e diz que a hipótese contra ele não tem fundamento.
Veículos de esquerda destacaram a teia financeira em torno do bolsonarismo. Para essa cobertura, o episódio recoloca a família Bolsonaro e o Banco Master sob o holofote das autoridades de controle e levanta a suspeita de que recursos privados, emendas parlamentares e contratos públicos teriam sido usados para financiar uma obra de propaganda política. A insistência de Lindbergh em manter as apurações unidas é apresentada como esforço para impedir que a investigação seja fragmentada ou esvaziada.
Nos pontos centrais, as coberturas convergem: a decisão de Fachin existiu, a relatoria foi para Mendonça pelo critério de prevenção, a PGR defendeu a troca e o caso corre sob sigilo. Convergem também no peso político do episódio, que recai sobre Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência, em ano eleitoral. A divergência está no enquadramento: a esquerda foca no dinheiro opaco e na necessidade de uma apuração ampla, enquanto a direita foca no possível uso político do Judiciário e na contestação processual movida por um deputado da oposição.
O que ainda não se sabe é decisivo. Não há definição sobre se a PGR pedirá a abertura de inquérito formal, sugerirá diligências prévias como novas perícias no áudio e quebras de sigilo bancário, ou recomendará o arquivamento. Por causa do sigilo nível 3, o público só deve conhecer trechos pontuais das decisões, e o desfecho do agravo de Lindbergh, que pode devolver o caso a Dino, permanece em aberto.