A estreia de 'Dark Horse', longa-metragem que retrata a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro, pode ser adiada para depois das eleições de outubro de 2026. A produtora Go Up Entertainment trabalha com um lançamento entre novembro e dezembro deste ano, afastando a obra do período eleitoral. Inicialmente, o projeto previa estreia antes do pleito, mas o debate sobre seu possível uso político ganhou força.
A cobertura de centro relatou que o adiamento tem motivos de calendário. A sócia da produtora, Karina Ferreira da Gama, avalia que a fase de promoção do filme só poderia começar após o encerramento da Copa do Mundo, em 19 de julho, o que reduz a janela para um lançamento robusto ainda durante a campanha. A definição da data é acompanhada de perto pela família Bolsonaro, e aliados do senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência, discutem internamente o momento mais adequado para a chegada do filme aos cinemas.
O componente político da história é central. O PT acionou o Ministério Público Eleitoral alegando potencial influência da produção na disputa presidencial. Durante a primeira exibição pública, para um grupo seleto nos Estados Unidos, o diretor americano Cyrus Nowrasteh afirmou esperar que a obra contribua para a eleição de Flávio Bolsonaro. O financiamento também alimenta a controvérsia: segundo reportagens, o banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master e alvo de investigações por suspeitas de fraude contra o sistema financeiro, teria destinado ao menos R$ 61 milhões ao projeto. Informações da imprensa apontam ainda que Flávio Bolsonaro teria participado de negociações sobre um aporte de até R$ 134 milhões. Uma perícia privada contratada pela produtora concluiu que o filme custou R$ 75,1 milhões, sendo R$ 54,2 milhões nos Estados Unidos e R$ 20,9 milhões no Brasil, e afirmou que os recursos têm origem privada, respaldada por contratos e extratos bancários.
É aqui que as coberturas divergem. Veículos de esquerda enfatizaram o enquadramento do filme como propaganda eleitoral custeada por dinheiro de origem suspeita, tratando o acionamento do MPE como defesa da lisura do pleito e destacando o histórico de investigação do Banco Master. Veículos de direita enfatizaram a legitimidade da obra como produção privada e livre expressão, descrevendo a ação do PT como tentativa de censura e ressaltando a conclusão pericial de que os recursos seriam lícitos e documentados.
As investigações se estendem para além do filme. A Polícia Federal passou a apurar se recursos do fundo Havengate Development Fund LP, que transferiu mais de US$ 13 milhões à produção até 10 de junho, também teriam custeado a permanência do ex-deputado Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, onde reside desde fevereiro de 2025. O fundo é representado pelo escritório do advogado Paulo Calixto, que atua na defesa de Eduardo.
O que ainda não se sabe é decisivo. Não há conclusão das investigações da PF sobre uma eventual ligação entre os recursos do filme e o financiamento da estadia de Eduardo Bolsonaro no exterior, nem definição final da data de estreia. Também permanece em aberto o desfecho da apuração no Ministério Público Eleitoral e a resposta formal da família Bolsonaro às suspeitas levantadas sobre a origem do dinheiro.