O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência da República, divulgou no domingo, 9 de agosto, uma carta dirigida ao pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, em que classifica de “desumana”, “insana” e “injusta” a decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, que negou o pedido para que ele e os irmãos Carlos e Jair Renan visitassem o ex-presidente no Dia dos Pais. O senador leu o texto em um vídeo publicado nas redes sociais, no qual aparece chorando.
A carta foi escrita no sábado, 8 de agosto, mesmo dia da negativa. A defesa havia pedido autorização excepcional para o encontro, alegando caráter “estritamente humanitário e familiar”. Moraes respondeu que as visitas de familiares estão suspensas desde 17 de julho e que, nesse período, apenas advogados, médicos e fisioterapeutas podem ver o ex-presidente, que cumpre prisão domiciliar e está proibido de usar celular, internet e redes sociais, inclusive por intermédio de terceiros.
Sobre Flávio pesa uma restrição mais longa. Ele foi proibido de visitar o pai por 90 dias depois de ler publicamente, em 11 de julho, uma carta do ex-presidente e anunciar que o documento seria divulgado nas redes. O ministro entendeu que a divulgação violou as restrições impostas. Como o prazo só se encerra depois do primeiro turno, marcado para 4 de outubro, o senador deve percorrer toda a reta final da campanha sem contato presencial com o pai. Antes disso, por ser advogado inscrito na defesa, ele tinha acesso livre ao ex-presidente.
A cobertura de centro relatou o episódio de forma predominantemente factual, reproduzindo trechos da carta e encadeando-os com o histórico das decisões judiciais e com o quadro político da candidatura. Essa cobertura registra que a chapa chegou às convenções isolada no PL, com partidos do centrão resistindo a aderir formalmente, embora o senador afirme ter ao seu lado as principais lideranças dessas siglas e diga ter fechado “bons palanques” em quase todos os estados junto com o senador Rogério Marinho. Parte desse noticiário acrescentou que, no mesmo domingo, o candidato participou de um culto em São Paulo ao lado do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha, cassado em 2016, e da deputada Dani Cunha, presença que não apareceu nas imagens divulgadas pelo próprio senador.
Veículos de direita registraram o episódio em tom mais curto e centrado na dimensão familiar, apresentando o candidato como emocionado e destacando a saudade do pai e a trajetória de campanha, sem recuperar o histórico de descumprimento que originou o veto. Já veículos de esquerda não cobriram o caso no conjunto analisado, o que deixa sem contraponto explícito a leitura, comum nesse campo, de que as restrições decorrem de decisões judiciais descumpridas. Esse é o ponto cego da cobertura reunida até aqui.
A disputa em torno das visitas já virou tema de campanha. Pesquisa Datafolha feita em 22 e 23 de julho mostrou que 59% dos eleitores consideraram que o ministro agiu mal ao impedir Flávio de visitar o pai, enquanto 62% concordavam com a proibição de o ex-presidente usar redes sociais durante a prisão domiciliar. Na carta, o senador também diz mentalizar a cena em que receberia a faixa presidencial das mãos do pai em janeiro de 2027 e afirma ter assumido a candidatura como missão de fé.
Ainda não se sabe quais lideranças de partidos de centro apoiariam a candidatura, já que o senador não as nomeou, nem se a defesa vai recorrer da negativa ou pedir a revisão do veto de 90 dias antes do primeiro turno. Também não há informação independente e atualizada sobre o estado de saúde do ex-presidente, relatado apenas por intermédio dos advogados.