O senador e pré-candidato do PL à Presidência da República, Flávio Bolsonaro, cumpriu nesta sexta-feira agenda na Romaria do Divino Pai Eterno, em Trindade, Goiás, uma das maiores manifestações religiosas do país. A movimentação ocorre dias depois de um atrito público com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que ampliou a tensão no entorno do bolsonarismo às vésperas da disputa de 2026.
O estopim do desentendimento, segundo a cobertura de centro, foi a divergência sobre as alianças do PL no Ceará. Michelle defende o apoio ao senador Eduardo Girão, do Novo, ao governo estadual e à deputada Priscila Costa, do PL, ao Senado. Dirigentes do partido, por outro lado, sustentam a aproximação com Ciro Gomes, articulação que, segundo eles, teve aval de Jair Bolsonaro. Ao discordar da estratégia, Michelle publicou vídeos em que relatou ter sido maltratada e afirmou que Flávio teria pedido que ela ficasse fora das decisões eleitorais, alegando que ela não entende de política.
A reportagem de centro registrou que, após a repercussão, Flávio publicou um vídeo pedindo desculpas. Negou ter tido a intenção de ofender, afirmou estar de coração aberto e renovou o convite para um encontro com lideranças femininas conservadoras, marcado para o dia 1º de julho, em Brasília. Michelle, por sua vez, escreveu nas redes que não tem raiva de ninguém, que não há briga nem competição e conclamou os aliados a trabalharem juntos para derrotar o atual governo.
Veículos de direita enfatizaram o gesto de recomposição. A cobertura da imprensa conservadora destacou que Flávio reagiu com humildade, pregou diálogo, respeito e união, e tratou a crise como um arranhão superável. Nessa leitura, a participação na romaria é vista como aproximação com a base evangélica e conservadora, e o convite mantido para o encontro com mulheres reforça a disposição de costurar a paz interna. O suspense ficou por conta de Michelle, que até então não havia sinalizado se compareceria à reunião.
Veículos de centro adotaram tom analítico e contraposto. Em formato de debate, a CNN ouviu analistas com leituras opostas: para uma das vozes, o vídeo de Michelle foi uma jogada política calculada, dirigida ao eleitorado feminino e evangélico que Flávio ainda precisa conquistar; para outra, o episódio é fogo amigo que prejudica a candidatura e revela falha de comunicação do PL. Houve ainda a avaliação de que a resposta de Flávio carregou violência simbólica, ao se colocar como vítima e desconsiderar Michelle como figura política habilidosa.
A partir desses elementos, a leitura à esquerda enfatizaria o tratamento dispensado a uma liderança feminina dentro do campo conservador, vendo no episódio um padrão de silenciamento de mulheres e a costura de alianças decididas de cima para baixo, contra a vontade da base. O que ainda não se sabe é se Michelle participará do encontro de 1º de julho, qual será o desfecho da disputa sobre as alianças no Ceará e que efeito concreto, se algum, o atrito terá sobre a pré-candidatura presidencial de Flávio.