A eleição presidencial de 2026 passou a ser disputada também dentro dos tribunais. Em reunião reservada na noite de terça-feira, 18 de agosto, os sete ministros do Tribunal Superior Eleitoral discutiram por quase duas horas como a Justiça Eleitoral deve tratar o uso de inteligência artificial e de deepfakes na campanha. A maioria sinalizou que pretende proibir esse tipo de conteúdo de forma ampla, independentemente de o material favorecer ou atacar candidatos. A posição contraria a do presidente da Corte, Kassio Nunes Marques, e a de André Mendonça, para quem a restrição deveria alcançar apenas peças de caráter depreciativo. Na semana anterior, os dois já haviam sido vencidos em plenário virtual sobre o mesmo ponto. O encontro não fixou data para o julgamento dos processos urgentes.
Duas ações sob relatoria de Nunes Marques concentram o impasse. A primeira, apresentada pelo Partido dos Trabalhadores, questiona o uso de inteligência artificial pela campanha de Flávio Bolsonaro, do PL, que divulgou vídeo falso no qual Jair Bolsonaro aparecia declarando apoio ao filho durante a convenção do partido. A segunda trata da suspensão de uma pesquisa do instituto AtlasIntel que incorporou áudios vazados de conversa entre o senador e o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master. O mesmo caso alimenta uma frente policial: mais de 90 dias depois de prometer explicações, Flávio Bolsonaro não detalhou o destino de R$ 10 milhões repassados pelo banqueiro, valores que teriam financiado o filme de propaganda política Dark Horse. A Polícia Federal apura ainda repasses da Prefeitura de São Paulo e emendas parlamentares ao Instituto Conhecer Brasil, organização ligada à produção do filme.
No Supremo Tribunal Federal, outro conjunto de investigações atravessa a campanha. Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, é alvo de três inquéritos autorizados pela Corte a pedido da Polícia Federal, desdobramentos da Operação Sem Desconto, que apura fraudes em descontos aplicados a benefícios do Instituto Nacional do Seguro Social. Esses processos correm enquanto o próprio tribunal passa por uma reorganização interna, com grupos distintos reunidos em torno de Alexandre de Moraes, que assume a presidência em 2027, e de André Mendonça. Ao menos três cadeiras entram no horizonte da próxima gestão presidencial, as de Luiz Fux e Cármen Lúcia e a vaga aberta com a saída de Luís Roberto Barroso, o que liga o resultado das urnas à futura correlação de forças do Supremo.
Há convergência entre as coberturas sobre o essencial: os casos existem, estão sob apuração formal e já contaminam o calendário eleitoral. A divergência está no eixo do relato. Veículos de esquerda destacaram a frente da desinformação e da responsabilização de Flávio Bolsonaro, apresentando o isolamento de ministros indicados por Jair Bolsonaro como sinal de que a maioria da Corte reconheceu o risco do conteúdo sintético, e acrescentaram o recorte de gênero, com estimativa da ONU Mulheres de que mais de 98% dos deepfakes de nudez não autorizada atingem mulheres. A cobertura de centro relatou o quadro como tabuleiro institucional, dando peso equivalente ao caso do filho do presidente e ao caso Banco Master e situando ambos dentro da disputa por poder interno no Supremo, com a ressalva de que interlocutores do governo dizem não conseguir dimensionar a extensão do episódio. Veículos de direita não cobriram este recorte no material disponível, e o ângulo que costuma organizar esse campo, o de excesso de intervenção judicial sobre a campanha e o de proximidade da investigação com o Palácio do Planalto, não apareceu em nenhuma das peças reunidas.
O que ainda não se sabe é o mais determinante. O Tribunal Superior Eleitoral não marcou data para julgar as duas ações nem publicou o desenho final da regra sobre inteligência artificial, e o recurso de Pablo Marçal, inelegível até 2032 por condenações relacionadas a abuso de poder econômico na eleição paulistana de 2024, segue sem decisão definitiva às vésperas do primeiro debate presidencial, marcado para 23 de agosto. Também não há informação pública sobre o destino dos R$ 10 milhões, sobre o conteúdo dos três inquéritos autorizados pelo Supremo nem sobre prazo de conclusão das apurações da Polícia Federal.