O governo dos Estados Unidos revogou, na terça-feira, 4 de agosto de 2026, o visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti, diplomata de carreira que chefia a representação brasileira desde 2023. A medida foi anunciada pelo Departamento de Estado americano como resposta à demora do governo brasileiro em conceder o agrément, a autorização formal que um país dá antes que um embaixador estrangeiro assuma o posto. O nome em disputa é o de Daniel Perez, indicado por Donald Trump para chefiar a embaixada americana em Brasília. Washington informou que a revogação pode ser revertida caso o aval seja concedido e afirmou que outras opções seguem sobre a mesa.
A cobertura de centro relatou os elementos factuais em que todas as fontes convergem. A indicação de Perez foi anunciada publicamente em 1º de junho, antes do pedido formal de agrément ao Brasil, o que inverte a praxe prevista na Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas. O nome já passou por uma comissão do Senado americano e aguarda votação no plenário. E a decisão sobre o visto veio cerca de dez dias depois de o Itamaraty negar a entrada de dois funcionários do Departamento de Estado que pretendiam discutir integridade eleitoral, liberdade religiosa e liberdade de expressão em Brasília. Em nota, o governo brasileiro repudiou a revogação, classificou como falsas as justificativas americanas e lembrou que não há regra fixando prazo para a concessão do agrément.
Veículos de esquerda enfatizaram o caráter de coerção da medida e o seu efeito sobre a eleição presidencial de outubro. Nessa leitura, Washington converteu um procedimento diplomático rotineiro em instrumento de pressão sobre uma decisão soberana do Brasil, num encadeamento que inclui o tarifaço sobre produtos brasileiros, sanções individuais a autoridades e a designação de facções criminosas como organizações terroristas. Parte dessa cobertura destacou ainda a proximidade de aliados da família Bolsonaro com o governo americano, relatando que a decisão teria circulado em Washington antes de chegar ao Itamaraty, e apresentou o episódio como parte de uma articulação internacional em favor da candidatura do senador Flávio Bolsonaro.
Veículos de direita deram centralidade à avaliação técnica de um ex-embaixador do Brasil nos Estados Unidos, para quem a medida é inédita nas últimas décadas e funciona como ameaça de retaliação, mas que também considerou que Washington agiu fora das convenções ao divulgar o indicado antes de pedir o aval. Essa cobertura sublinhou que a resposta oficial partiu da Secretaria de Comunicação da Presidência, e não do Ministério das Relações Exteriores, lendo aí um tom político do Planalto, e defendeu que a crise diplomática seja tratada separadamente da negociação comercial sobre tarifas.
Há divergência factual relevante entre as coberturas sobre o alcance prático da medida. Parte dos textos afirma que a revogação equivale à expulsão da diplomata do território americano. Outra parte, apoiada em declarações do próprio Departamento de Estado, registra que Viotti não foi declarada persona non grata e pode permanecer nos Estados Unidos, ficando sujeita a novo pedido de visto apenas se deixar o país.
O que ainda não se sabe é se e quando o governo brasileiro concederá o agrément a Daniel Perez, se a embaixadora permanecerá no posto até a eleição, quais seriam as novas medidas cogitadas por Washington e se o plenário do Senado americano confirmará a indicação. Também não há confirmação oficial sobre o vazamento antecipado da decisão a interlocutores brasileiros, relatado por parte da cobertura e não comentado pelo governo americano.