O presidente da Argentina, Javier Milei, voltou a chamar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva de ladrão e corrupto em entrevista à televisão argentina exibida no domingo, 2 de agosto de 2026, e publicada por um jornal de Buenos Aires. Na conversa, ele disse que o brasileiro foi condenado por ser ladrão e corrupto, que esteve preso e que só deixou a cadeia por uma falha administrativa do procedimento, e não por ser inocente. As declarações ampliaram a crise diplomática aberta uma semana antes entre os dois países.
O ponto de partida do atrito foi 25 de julho, quando Milei participou, em São Paulo, da convenção nacional do Partido Liberal que oficializou a candidatura presidencial do senador Flávio Bolsonaro. No palanque, o argentino já havia chamado o presidente brasileiro de ladrão e presidiário e feito críticas ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. Depois do episódio, o Itamaraty convocou o embaixador argentino no Brasil para transmitir repúdio e chamou para consultas o embaixador brasileiro em Buenos Aires. Com as novas falas, o retorno do diplomata brasileiro ao posto, previsto para os dias seguintes, deve ser adiado, sem que o governo tenha anunciado rompimento ou redução formal das relações.
Há um fato que atravessa toda a cobertura sem controvérsia: as condenações do presidente brasileiro na Operação Lava Jato foram anuladas pelo Supremo Tribunal Federal em 2021, sob o entendimento de que a 13ª Vara Federal de Curitiba não tinha competência para julgar os processos, somado ao reconhecimento de parcialidade do então juiz do caso. A decisão retirou a validade das sentenças e devolveu os direitos políticos ao petista, embora não tenha significado absolvição sobre o mérito das acusações. A cobertura de centro relatou o episódio nesse registro, reproduzindo as ofensas entre aspas e apontando duas vezes que o presidente argentino não apresentou provas: nem para a acusação de que o brasileiro interfere politicamente na América Latina espalhando ideias socialistas, nem para a alegação, atribuída ao ex-deputado Eduardo Bolsonaro, de que o governo brasileiro teria destinado um bilhão de dólares para desgastá-lo na eleição argentina de 2023.
É na leitura do que está por trás da acusação que a cobertura se divide. Veículos de esquerda deslocaram o foco da crise diplomática para a origem da própria fama de corrupto, tratada como construção política de quatro décadas sem lastro probatório: nunca houve o apartamento no Morumbi da lenda dos anos 1980, nem conta no exterior, nem sinal de riqueza injustificada, e a única condenação veio de um juízo depois declarado incompetente e parcial. Nesse enquadramento, a repetição da ofensa por um chefe de Estado estrangeiro em palanque eleitoral brasileiro é ingerência a serviço da extrema direita, e a adesão popular à acusação se explica por preconceito de classe contra o pobre que ascendeu socialmente. Veículos de direita não registraram cobertura própria do episódio no conjunto de matérias reunido, o que deixa o contraponto sem voz direta: os argumentos que costumam sustentar esse campo, como o fato de a anulação ter sido processual e não de mérito, ou a acusação de que a reação do Itamaraty é desproporcional em ano eleitoral, aparecem aqui apenas como ausência.
O episódio ocorre com a disputa presidencial brasileira já em curso, com candidaturas oficializadas dos dois principais lados, o que torna a fricção externa também material de campanha interna. Ainda não se sabe quando o embaixador brasileiro voltará a Buenos Aires, se haverá mudança formal no nível da representação diplomática entre os dois países, nem se o governo argentino manterá a posição, afirmada pelo chanceler na semana anterior, de que não há possibilidade de rompimento com o principal parceiro comercial do país. Também não há qualquer evidência pública apresentada para sustentar a acusação sobre o repasse de um bilhão de dólares na eleição argentina de 2023.