O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) teve uma segunda-feira, 13 de julho, dividida entre dois compromissos em São Paulo nos quais ligou o conflito armado no Oriente Médio ao custo de vida dos brasileiros e à necessidade de o país reforçar sua capacidade de defesa. Em discurso no Instituto Mauá de Tecnologia, em São Caetano do Sul, ele afirmou que a guerra entre Irã e Estados Unidos, ao pressionar o preço internacional do petróleo, encarece produtos básicos como feijão, arroz, tomate e cebola no mercado brasileiro. Segundo o presidente, a guerra foi "provocada pelos Estados Unidos" e tem reflexo direto no bolso da população.
Para conter o impacto no preço dos combustíveis, o governo federal mantém, desde março, um imposto de 12% sobre a exportação de petróleo bruto, cuja arrecadação, segundo Lula, é usada para subsidiar a gasolina vendida no mercado interno. Na semana anterior ao discurso, o Gecex, comitê da Câmara de Comércio Exterior (Camex), renovou a cobrança por mais 60 dias. Horas antes, em evento no Instituto de Aeronáutica e Espaço (IAE), em São José dos Campos, o presidente disse que o Brasil não deseja guerra, mas precisa estar altamente preparado para defender sua soberania. Ele citou investimentos em tecnologia militar e aeroespacial iniciados ainda em seu primeiro mandato, entre eles uma turbina de avião movida a etanol que tornou o Brasil o sexto país do mundo a produzir esse tipo de equipamento.
A cobertura de centro, representada pelo Poder360, relatou as falas do presidente com citações diretas e reproduziu o enquadramento do próprio Lula sobre a causa da alta dos alimentos, sem contrapor dados de especialistas em comércio exterior ou economia sobre o real peso da guerra nos preços internos. Veículos de esquerda tendem a descrever esse discurso como defesa legítima da soberania energética e da proteção social diante de um conflito provocado por uma potência estrangeira, enquadrando o imposto sobre exportação de petróleo como instrumento de justiça distributiva que protege o consumidor brasileiro. Já veículos de direita tendem a questionar a atribuição da alta de preços exclusivamente à guerra, apontando que o aumento e a manutenção de impostos sobre o setor de combustíveis podem distorcer o mercado e mascarar pressões inflacionárias de origem fiscal interna, além de verem no discurso sobre soberania uma forma de desviar a atenção da responsabilidade econômica do próprio governo.
No mesmo discurso em São Caetano do Sul, Lula criticou o ceticismo climático do presidente americano Donald Trump e defendeu a ampliação do uso de biocombustíveis. Entidades do setor entregaram a ele uma carta pedindo o aumento da mistura obrigatória de biodiesel no diesel, de 15% para 17%, argumentando que a medida reduziria a dependência de importações de combustíveis fósseis e reforçaria a segurança energética do país.
Ainda não está claro qual parcela exata do aumento dos preços dos alimentos é atribuível à guerra no Oriente Médio, nem se o governo pretende rever o percentual do imposto de exportação de petróleo além da atual renovação por 60 dias. Também não há prazo definido para uma decisão sobre o pedido de aumento da mistura de biodiesel feito pelo setor de biocombustíveis.