O presidente Luiz Inácio Lula da Silva telefonou para o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na manhã de sexta-feira, 21 de agosto. Foi a primeira conversa direta entre os dois desde a entrada em vigor da sobretaxa americana de 25% sobre parte das exportações brasileiras, anunciada em 15 de julho. Segundo o Palácio do Planalto, a ligação partiu do lado brasileiro, durou uma hora e vinte minutos e transcorreu em tom descrito pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência como amistoso e cordial. A conversa foi organizada em três blocos, nesta ordem: comércio, combate ao crime organizado e conflitos internacionais.
Na parte comercial, o presidente brasileiro afirmou que as alegações usadas para justificar as tarifas, entre elas desmatamento, propriedade intelectual, Pix, etanol e importações de produtos feitos com trabalho forçado, são infundadas. O americano, de acordo com a nota oficial, concordou com a necessidade de preservar vínculos comerciais fortes e propôs que as equipes voltassem a se reunir o mais rápido possível. O ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Márcio Elias Rosa, confirmou que o representante comercial americano, Jamieson Greer, o procurou logo depois da ligação e que os dois marcaram uma reunião por vídeo para a semana seguinte.
Horas mais tarde, num ato de campanha na Praça da Estação, em Belo Horizonte, Lula deu a versão que dominou a cobertura: disse ter afirmado a Trump que a taxação é irreal e foi feita com base na mentira, e que o americano reconheceu o argumento. A cobertura de centro relatou o episódio com atribuição explícita ao presidente brasileiro e registrou o descompasso entre esse relato e a nota oficial, que não menciona qualquer admissão de erro. Apuração de bastidor com fontes que acompanharam a ligação indica que Trump não rebateu as críticas ao tarifaço, respondeu de forma genérica e propôs a negociação, e que o governo brasileiro não espera reversão das alíquotas no curto prazo.
Os relatos convergem em outros dois pontos. No bloco de segurança, Lula ofereceu cooperação contra o crime organizado, mas rejeitou que o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho sejam tratados como organizações terroristas, citando a apreensão de cerca de R$ 17 bilhões e o plano de transformar 138 presídios em unidades de segurança máxima. No bloco geopolítico, os dois trataram das guerras na Ucrânia e no Oriente Médio, e o brasileiro propôs uma reunião extraordinária do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Foi também o americano quem abriu a conversa perguntando sobre a eleição de outubro, ao que Lula respondeu afirmando a confiabilidade do sistema de votação, sem réplica do outro lado.
A divergência de enquadramento aparece no que cada cobertura escolhe iluminar. Veículos de esquerda organizaram a matéria em torno da soberania: destacaram a frase de que o Brasil quer trabalhar junto, mas não aceita interferência, e trataram a contestação das acusações de desmatamento e trabalho escravo como demonstração de que o enfrentamento firme funciona. A cobertura de centro ficou no perímetro documental, com as duas alíquotas, a base legal americana, o alcance de US$ 5,8 bilhões em exportações atingidas e a ressalva de que nada foi revertido. Veículos de direita não produziram cobertura própria deste telefonema no conjunto analisado, e a ausência é ela mesma um dado: o ângulo que costuma sustentar essa leitura, o de que o tarifaço segue integralmente em vigor, que a admissão atribuída ao americano não tem confirmação e que a bandeira da soberania está sendo usada em palanque a semanas do pleito, aparece apenas de forma lateral nas matérias de centro, que citam pesquisador avaliando o uso eleitoral do tema e registram que o processo de reciprocidade aberto pelo Itamaraty em 14 de agosto não foi mencionado por nenhum dos presidentes.
O que ainda não se sabe é o essencial. Não há versão americana pública sobre a conversa, nem confirmação de que Trump tenha reconhecido erro nas justificativas da taxação. Não foram divulgados data, formato ou agenda da reunião entre os negociadores além da menção genérica à semana seguinte. Também não está definido se o Brasil dará seguimento ao processo de reciprocidade, o que aconteceria com as alíquotas em caso de acordo e se a ala do Departamento de Estado, apontada na cobertura como mais próxima da família Bolsonaro, seguirá tratando a eleição brasileira como tema aberto.