A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro divulgou um vídeo de cerca de trinta minutos que escancarou um racha dentro da família Bolsonaro e do Partido Liberal. O estopim foi a articulação do PL no Ceará para apoiar o ex-ministro Ciro Gomes, hoje pré-candidato ao governo do estado. Michelle se opôs à aliança e, segundo seu relato, foi tratada com rispidez pelo enteado, o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência da República em 2026. O episódio atinge em cheio uma pré-campanha que já vinha sob pressão.
No vídeo, Michelle afirma ter sido humilhada em uma conversa telefônica com Flávio, que teria dito que ela havia chegado ontem à política e nada entendia do jogo partidário. A ex-primeira-dama defende a manutenção de valores ideológicos e o apoio a candidaturas conservadoras, como a pré-candidatura de Eduardo Girão, do Novo, ao governo do Ceará. Ela também questionou a tentativa de retirar a vereadora Priscila Costa da disputa pela chapa ao Senado para acomodar Ciro Gomes.
A cobertura de centro relatou os fatos de forma equilibrada. Reportagens do Diário do Nordeste e do Midiamax reconstruíram a cronologia do atrito, trouxeram aspas diretas de Michelle e registraram a réplica do presidente do PL Ceará, o deputado André Fernandes, que respondeu: ela faz o que quiser, eu voto no Ciro Gomes. Essas reportagens lembraram ainda que Ciro Gomes igualou Lula e Bolsonaro em entrevista recente e que o PL chegou a suspender as negociações após atritos anteriores com a família.
Veículos de esquerda enfatizaram o que classificaram como padrão de truculência familiar e desrespeito a uma mulher dentro do próprio grupo. Para essa cobertura, o tratamento dispensado a Michelle agrava a rejeição de Flávio entre o eleitorado feminino e se soma ao desgaste provocado pelo escândalo que envolve o senador e o banqueiro Daniel Vorcaro. Esses veículos destacaram também a saída de aliados, como o senador Styvenson Valentim, como sinal de isolamento da candidatura.
A análise de centro, em blog de veículo de referência, leu o gesto de Michelle como uma demonstração pública de força. Segundo aliados de Flávio ouvidos nos bastidores, a ex-primeira-dama se posiciona como a integrante mais leal às orientações de Jair Bolsonaro, numa disputa que vai além de 2026 e mira o espólio político do bolsonarismo em 2030, no cenário pós-Lula. Sob esse prisma, mais próximo da leitura de veículos de direita, Michelle se apresenta como guardiã da coerência ideológica frente ao pragmatismo dos filhos, que aceitariam o apoio de um adversário histórico da família.
O que ainda não se sabe é como Flávio Bolsonaro responderá publicamente ao relato da madrasta, já que até o momento ele tentou minimizar o episódio. Também permanece em aberto o futuro concreto da aliança do PL com Ciro Gomes no Ceará e qual será o real impacto eleitoral do racha sobre a pré-candidatura presidencial do senador.