A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro divulgou, em junho de 2026, um vídeo de quase trinta minutos no qual escancarou um racha dentro da família Bolsonaro e afirmou ter sido humilhada pelo enteado, o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência pelo Partido Liberal. Segundo o relato, Flávio a tratou com rispidez por telefone e disse que ela 'havia chegado ontem' à política e nada entendia do jogo partidário, depois que Michelle se opôs a uma aliança do PL no Ceará.
O estopim do conflito é a aproximação do PL cearense, comandado pelo deputado André Fernandes, com o ex-ministro Ciro Gomes, hoje pré-candidato ao governo do Ceará. Michelle defende a pré-candidatura de Eduardo Girão, do Novo, e critica abertamente a articulação com Ciro, que considera um adversário histórico da família. Procurado, André Fernandes rebateu de forma direta: disse que vota em Ciro Gomes e que Michelle 'faz o que quiser'. A aliança chegou a ser suspensa após atritos com o clã, mas voltou ao centro da polêmica.
A cobertura de centro relatou os fatos com atribuição de aspas aos dois lados: as publicações de Michelle nas redes, a resposta de André Fernandes e a leitura de bastidores de que o episódio é, na prática, uma disputa pelo espólio político do bolsonarismo, com olho em 2026 e também em 2030. Colunas analíticas registraram que aliados de Flávio admitem preocupação com o impacto da fala entre mulheres e evangélicos, segmentos nos quais Michelle construiu identificação, e que ela se posiciona como a integrante mais fiel às orientações de Jair Bolsonaro.
Veículos de esquerda enfatizaram o que descrevem como truculência e machismo do clã: destacaram que Flávio teria desrespeitado a madrasta justamente quando tentava recuperar o voto feminino, já pressionado por um escândalo envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro e por queda nas pesquisas. Para essa cobertura, buscar aliança com Ciro Gomes, que ajudou a tornar Jair Bolsonaro inelegível, expõe a hipocrisia de um projeto movido por poder, e não por valores.
Veículos de direita e o próprio enquadramento de Michelle tratam a divergência como uma disputa legítima sobre coerência ideológica e fidelidade à palavra do líder. Nessa leitura, Michelle defende a manutenção de nomes conservadores, como Eduardo Girão e a vereadora Priscila Costa, contra uma aliança pragmática que sacrificaria a identidade do campo. O recolhimento dela, frisa essa narrativa, não significa submissão, mas lealdade às diretrizes pactuadas com o ex-presidente.
O que ainda não se sabe é como Flávio Bolsonaro responderá publicamente à versão de Michelle, já que sua fala direta sobre a conversa telefônica não aparece nas matérias, e qual será o desfecho da aliança do PL com Ciro Gomes no Ceará. Também permanece em aberto o efeito concreto do episódio sobre as pesquisas e sobre a chapa majoritária cearense.