Até o momento, apenas um veículo cobriu o caso, relatando que um projeto de criptomoeda ligado ao voto 22 passou a usar vídeos de crianças de Uganda para atrair apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro, do PL, na disputa presidencial.
Segundo essa cobertura, Kevim Guerra dos Santos Flores é apontado como idealizador e divulgador do Brasil 22 Token, o B22. O modelo prevê a distribuição de tokens, que podem ser convertidos em dinheiro, a pessoas que compartilhem conteúdos do projeto nas redes sociais. Isso cria um incentivo financeiro para ampliar a propaganda do candidato.
Flores também divulgou parceria com o HypersKidsAfrica, grupo de Uganda conhecido por vídeos de crianças dançando. O perfil reúne cerca de 13 milhões de seguidores e arrecada recursos para construir uma casa destinada às crianças em Kampala. Nos vídeos, crianças com camisetas amarelas com a marca do token cantam: "vota, vota e confirma, 22 é Bolsonaro". O site do B22 afirma ter destinado 120 milhões de tokens ao projeto ugandense.
Em transmissão ao vivo com Nahuel Medina, Flores disse que a parceria buscava ampliar a circulação do token entre pessoas que haviam votado no número 13. Também falou em um possível "efeito manada", maior porque os participantes seriam incentivados a compartilhar o B22 em troca de "gamificação" e da chance de receber dinheiro. Em outra divulgação, publicou um vídeo gerado por inteligência artificial de Neymar dançando e convocou seguidores a entrar no grupo, comprar e compartilhar a moeda. Numa postagem sobre o envio dos 120 milhões de tokens, marcou Pablo Marçal, Nikolas Ferreira e Flávio Bolsonaro e escreveu "estamos juntos!!!".
O site do B22 afirma que o token foi criado pela comunidade e que sua entrega não depende do voto de quem participa. A página declara não manter vínculo oficial com político, partido, candidatura ou campanha, embora sustente que o ativo apoia o voto 22. Registros públicos consultados pelo veículo não identificaram o proprietário do domínio, cujos dados são protegidos. Flores se tornou um dos principais porta-vozes, mas não se apresenta claramente como dono do site.
Como só um veículo, de perfil de esquerda, tratou do tema, não há ainda cobertura de centro ou de direita para comparar. A leitura disponível enfatiza o uso de crianças e a falta de transparência. Não houve, no material disponível, resposta da campanha de Flávio Bolsonaro, de Flores ou do grupo de Uganda.
O que ainda não se sabe: quem é o dono do B22 e quem lucra com ele; se a campanha tinha conhecimento da iniciativa; se a distribuição de tokens por compartilhamento é enquadrada como propaganda paga pela legislação eleitoral; e em que condições as crianças de Uganda participaram dos vídeos.