A deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) abriu uma crise pública dentro do próprio partido ao acusar a direção nacional do PSOL de "rasgar" acordos firmados sobre a distribuição de recursos do fundo eleitoral para a campanha de outubro. Em publicações nas redes sociais, a parlamentar afirmou que o partido estaria "inviabilizando" sua candidatura e a de outros nomes que permaneceram na legenda para ajudá-la a superar a cláusula de barreira, mecanismo que exige um mínimo de votos para que um partido mantenha acesso a recursos públicos e a tempo de televisão.
No centro das críticas está o que Hilton chama de desmonte da política nacional de inclusão do PSOL, programa que previa ajustes na distribuição de verbas com base em critérios de gênero, raça e pessoas com deficiência. A deputada, que é negra e travesti e foi a vereadora mais votada do país em 2020, comparou sua verba à de outros candidatos: segundo ela, Manuela d'Ávila, recém-chegada ao partido e pré-candidata ao Senado pelo Rio Grande do Sul, teria previsão de receber mais que o dobro, e Juliano Medeiros, presidente da Federação PSOL-Rede, teria a mesma prioridade que ela mesmo em sua primeira disputa. "Isso é o privilégio branco e cis sobrepondo tudo", afirmou. Aliados citados por ela, como os deputados estaduais Renata Souza e Rick Azevedo, do Rio de Janeiro, e Carlos Giannazi, de São Paulo, também se disseram insatisfeitos com a gestão dos recursos.
A cobertura de centro relatou o episódio de forma factual, reproduzindo tanto as acusações da deputada quanto a resposta oficial da direção do PSOL. Em nota, a cúpula partidária rebateu Hilton e afirmou que a campanha dela é o maior investimento entre as candidaturas proporcionais da legenda, sustentando que o incentivo financeiro a candidaturas de mulheres, pessoas negras, indígenas, LGBTs e pessoas com deficiência é uma política consolidada, sem debate sobre mudanças. Hilton, em sentido contrário, criticou a condução da presidente nacional Paula Coradi e insistiu que o partido "simplesmente desmontou" sua política de inclusão.
Veículos de esquerda enfatizaram a dimensão de representatividade do conflito, destacando que lideranças negras, travestis e periféricas, que ampliaram o alcance do partido nas ruas, estariam sendo preteridas, e tratando o caso como um retrocesso no acesso de grupos historicamente excluídos aos espaços de poder. Esses veículos deram menos espaço à réplica da direção. Já veículos de direita enfatizaram que a disputa é, no fundo, uma briga por dinheiro público de campanha e que o episódio escancara a lógica de cotas e o cálculo eleitoral por identidade na alocação de verbas, além de expor a fragmentação da esquerda às vésperas do pleito.
O que ainda não se sabe são os números concretos em jogo: nenhum dos lados divulgou os valores exatos destinados a cada candidatura nem os critérios objetivos que a direção usou para definir os repasses. Também não está claro se haverá renegociação interna ou se a disputa terá desdobramentos sobre a estratégia do PSOL para superar a cláusula de barreira em outubro.