Na largada da campanha presidencial de 2026, o posicionamento ideológico dos candidatos deixou de ser subtexto e virou pauta declarada. Um levantamento com as 30 legendas registradas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) pediu que cada partido se classificasse no espectro político, e o resultado ajudou a desenhar o tabuleiro da disputa: o Missão, criado em 2025 por integrantes do Movimento Brasil Livre (MBL), se descreveu como “direita tecno-otimista”; o Avante, do escritor Augusto Cury, se declarou de centro; o Partido dos Trabalhadores (PT), do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, se classificou como de esquerda; e a assessoria de Ronaldo Caiado, do Partido Social Democrático (PSD), o apresentou como “direita raiz”, ainda que a chapa formada com o vice Gilberto Kassab tenha sido situada pelo partido na centro-direita.
A cobertura de centro tratou o tema como exercício de taxonomia política, ouvindo cientistas políticos para testar cada autodeclaração. Sobre Renan Santos, candidato do Missão, um professor da Universidade Federal de Pernambuco afirmou que o rótulo mais preciso é o de antissistema, e que a defesa de Estado mínimo somada à oposição ao lulismo o coloca na extrema-direita. Suas propostas incluem acabar com o crime organizado em um ano, cortar o orçamento das emendas impositivas e substituir o Bolsa Família por geração de emprego. O mesmo especialista observou que Santos é o único candidato a discursar contra Lula e contra Jair Bolsonaro ao mesmo tempo. Procurado, o candidato não se manifestou.
No caso de Ronaldo Caiado, a análise apontou quatro pilares construídos em quatro décadas de vida pública: a defesa do agronegócio e da propriedade privada, herdada da fundação da União Democrática Ruralista (UDR) nos anos 1980; a oposição histórica ao PT e a Lula desde a mesma década; a pauta de segurança pública e autodefesa; e o conservadorismo dos costumes. Em 2023, recém-eleito governador de Goiás, ele chegou a se dizer nem de direita nem de esquerda, mas “caiadista”, movimento lido como tentativa de personalizar a liderança num ciclo em que a associação a Bolsonaro havia deixado de render votos.
Já o presidente Lula aparece na cobertura por meio de declarações datadas. Em 2022, disse se considerar “um cidadão de esquerda” e “um socialista refinado”, porque defendia propriedade privada, liberdade de organização e direito de greve. Em 2025, afirmou que ficaria “mais esquerdista” ao tratar do combate à fome. Em junho deste ano, porém, foi flagrado em conversa vazada no encontro do Grupo dos Sete (G7), na França, dizendo que nunca foi “esquerdista”. Um professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie classificou-o como centro-esquerda pragmático e sustentou que o que define sua posição não é o rótulo assumido, mas políticas como o Bolsa Família e a expansão do Sistema Único de Saúde (SUS). Augusto Cury, por sua vez, se apresenta como “mente de direita e coração social”, com Estado enxuto e baixos impostos de um lado, e preocupação com fome, saúde mental e políticas públicas de outro, além de propor semipresidencialismo e fim da reeleição.
A divergência de cobertura aparece na escolha do eixo. Enquanto a leitura de centro se concentrou em classificar programas e trajetórias, veículos de direita deram destaque à sabatina de 20 de agosto em que Caiado respondeu que “tanto faz roubar com a mão esquerda ou direita, é ladrão”, ao ser questionado sobre as suspeitas envolvendo o filho de Lula nas investigações de fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e o financiamento de um filme sobre Jair Bolsonaro por um banqueiro. Nessa cobertura, o candidato também defendeu ampliar as prerrogativas dos governadores para legislar sobre crimes recorrentes em seus estados e classificou como inaceitável uma eventual intervenção dos Estados Unidos contra o narcotráfico em território brasileiro. Até o momento não houve cobertura de veículos de esquerda sobre este recorte, o que deixa sem registro direto a réplica do campo governista às acusações reproduzidas.
O arco recebeu ainda um capítulo institucional: em 19 de agosto, em coletiva em João Pessoa, Renan Santos disse ser contra a obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo, depois que os ministros Flávio Dino e Alexandre de Moraes sugeriram que o Supremo Tribunal Federal (STF) volte a discutir o tema, decidido em 2009 por 8 votos a 1.
O que ainda não se sabe é como essas promessas sobreviveriam ao teste institucional.