Os Estados Unidos e o Equador iniciaram operações militares conjuntas contra o narcotráfico em território equatoriano, com o envio de dois navios de guerra, lanchas interceptadoras e três helicópteros Black Hawk. O anúncio foi feito pelo ministro da Defesa do Equador, Gian Carlo Loffredo, que afirmou que o país vai triplicar sua capacidade de interdição na zona marítima. O Comando Sul das Forças Armadas dos Estados Unidos, o Southcom, confirmou que seu comandante, o general Francis L. Donovan, esteve no Equador nesta semana para tratar do enfrentamento aos cartéis com autoridades de Defesa. O número de militares americanos mobilizados não foi divulgado por nenhum dos dois governos.
As ações integram o Escudo das Américas, coalizão antidrogas que reúne cerca de 20 países da América Latina e do Caribe sob liderança do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O governador da província costeira de Esmeraldas, no norte do país e vizinha da Colômbia, Juan Jaramillo, afirmou que ali atua o sétimo grupo do Exército dos Estados Unidos, mas se recusou a dizer quantos militares estão na região ou desde quando. A província é castigada por assassinatos, sequestros e extorsões de grupos que usam os portos do Pacífico para exportar cocaína à Europa e aos Estados Unidos. Parte do equipamento será posicionada na rota entre o continente e as Ilhas Galápagos.
Os dois lados da cobertura convergem no essencial. Ambos registram o envio das embarcações e dos helicópteros, a existência do Escudo das Américas, a proximidade entre Daniel Noboa e Donald Trump, o sigilo sobre o efetivo mobilizado e as sanções anunciadas pelo Departamento de Estado contra pessoas e empresas sediadas no Equador, além do bloqueio de dez navios pesqueiros acusados de transportar cocaína.
A partir daí a cobertura se separa. Veículos de esquerda enquadraram o episódio pelo custo humano e pela soberania: destacaram que a campanha de bombardeios contra embarcações suspeitas, iniciada em 2025, já deixou pelo menos 215 mortos, que a Human Rights Watch e a imprensa internacional atribuem aos Estados Unidos ataques a barcos pesqueiros equatorianos com ao menos oito desaparecidos, e que um decreto publicado nesta semana autoriza militares americanos a permanecer no país por até 180 dias sem visto, com imunidade migratória. Esses veículos lembraram ainda que, em referendo realizado em 2025, os equatorianos votaram contra a instalação de bases militares americanas no país, e que a política de mão dura adotada por Daniel Noboa desde 2023 convive com um recorde de 52 homicídios por 100 mil habitantes.
Veículos de direita enfatizaram a dimensão de cooperação e de resultado. Nessa leitura, o Equador se tornou o primeiro integrante da Coalizão das Américas de Combate aos Cartéis a firmar operação conjunta com Washington, como afirmou o secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, em evento da aliança no Panamá na semana passada. Essa cobertura detalhou o alcance das sanções, que atingem Los Choneros e Los Lobos, organizações classificadas por Washington como terroristas estrangeiras e apontadas como parceiras do Cartel de Sinaloa e do Cartel Jalisco Nova Geração, e registrou a avaliação, feita pelo próprio Hegseth, de que o governo americano estuda operações terrestres contra o narcotráfico na América Latina. Não houve, até o momento, cobertura de centro sobre o episódio no conjunto analisado, o que deixa o relato factual dependente do cruzamento entre as duas pontas.
Várias questões seguem em aberto. Nenhum dos governos informou quantos militares americanos estão no Equador, desde quando atuam ali nem por quanto tempo permanecerão além do prazo previsto no decreto. Também não há esclarecimento oficial sobre a autoria e a base legal dos ataques às embarcações pesqueiras, nem sobre o paradeiro dos desaparecidos. Não foi divulgado se as operações terrestres mencionadas pelo secretário de Defesa serão realizadas em território equatoriano, sob qual regra de engajamento e com qual autorização do Legislativo local.