Os ferroviários das linhas 11-Coral, 12-Safira e 13-Jade da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos decidiram, em assembleia geral na noite de terça-feira (4), manter por tempo indeterminado a greve iniciada naquele mesmo dia. Com a decisão, a Prefeitura de São Paulo confirmou que o rodízio municipal de veículos segue suspenso. Somadas, as três linhas transportam cerca de 786,5 mil passageiros em dias úteis, segundo dados de junho.
O eixo do conflito não é salarial. O Sindicato dos Trabalhadores em Empresas Ferroviárias da Zona Central do Brasil exige do governo estadual um compromisso formal, por escrito, de que todos os trabalhadores serão mantidos mesmo com a concessão dos ramais à iniciativa privada. Por nota, o governo afirmou já ter assumido o compromisso de não fazer demissões durante o período de realocação dos funcionários e ter apresentado propostas concretas, sustentando que não há demissões em curso e que isso torna sem fundamento a motivação trabalhista da paralisação. O sindicato respondeu que ainda não recebeu garantia concreta por escrito.
A cobertura de centro relatou o impacto operacional e o efeito na cidade. Cerca de um terço da média de trens do horário de pico circulava à tarde, com foco nos trechos de maior demanda: a linha 11 operou entre Palmeiras-Barra Funda e Guaianases, a linha 12 entre Brás e Engenheiro Goulart, a linha 13 com todas as estações em velocidade reduzida e o Expresso Aeroporto totalmente parado. O plano de apoio emergencial entre empresas foi acionado, com 128 ônibus disponibilizados pela agência reguladora de transporte, além de ampliação da operação do metrô e de linhas intermunicipais. Nas ruas, a Companhia de Engenharia de Tráfego registrou por volta das 19h a Zona Sul com 281 km de lentidão, a Zona Oeste com 253 km e a Zona Leste com 231 km, índices que, segundo o órgão, ainda ficaram dentro da média para o horário. Com o rodízio suspenso, veículos de placa final 3 e 4 puderam circular nos picos da manhã e do fim da tarde. A Justiça do Trabalho havia determinado 80% do efetivo nos horários de pico e 60% no restante da operação, sob multa diária de R$ 400 mil, e previu multas de R$ 1 milhão ao sindicato e de R$ 2 milhões à companhia caso a greve fosse ampliada sem medidas de atendimento à população.
O episódio se soma a um histórico recente: no fim de julho, o Estado retomou temporariamente o controle das três linhas após falhas no sistema elétrico, incêndio em vagão e outros problemas registrados sob operação da concessionária que venceu o leilão. A concessão, arrematada em março de 2025 por 25 anos, prevê R$ 14,3 bilhões em investimentos, com construção de estações e extensão das linhas.
Até o momento, o caso foi coberto por veículos de centro, que relataram os fatos sem enquadramento ideológico marcado. A leitura de esquerda desses mesmos fatos enfatiza que a recusa em formalizar por escrito a garantia de emprego transfere ao trabalhador o risco de uma decisão do Estado, e que a devolução das linhas ao poder público semanas antes mostra que a operação privada não assegurou melhor serviço; nessa chave, ganha peso o projeto de lei estadual 730/2025, que permitiria absorver os ferroviários na administração pública em caso de concessão ou parceria público-privada, tema levado por dirigentes sindicais a deputados na Assembleia Legislativa. A leitura de direita enfatiza o custo imposto ao passageiro e ao contribuinte, argumenta que a promessa pública de não demitir durante a realocação já responde à pauta apresentada e trata a resistência à concessão como defesa de estrutura corporativa, apontando os R$ 14,3 bilhões previstos em investimentos e a decisão judicial que fixou efetivo mínimo como reconhecimento de que transporte de massa é serviço essencial. O governador do Estado classificou a paralisação como baderna e defendeu que a iniciativa privada moderniza o sistema.
O que ainda não se sabe é quanto tempo a greve vai durar, se o governo estadual entregará a garantia por escrito cobrada pelo sindicato e qual será o resultado da audiência de conciliação marcada no tribunal do trabalho. Também segue em aberto o destino do projeto de lei estadual sobre a absorção dos trabalhadores, o cronograma de devolução das linhas à concessionária e se as multas fixadas pela Justiça serão efetivamente aplicadas.