Relatórios produzidos por organismos internacionais descrevem um segundo campo de disputa na guerra entre Rússia e Ucrânia, distante das trincheiras: a infância. Desde a invasão em larga escala de fevereiro de 2022, milhares de crianças ucranianas desapareceram dos registros do próprio país e passaram a integrar um sistema que combina deportações, alteração de identidade civil, doutrinação, militarização e assimilação forçada, segundo os documentos citados. A tese central desses levantamentos é que a ocupação não se limita ao território e alcança também a formação da próxima geração que viverá nessas áreas.
Uma missão independente criada pela Organização para a Segurança e Cooperação na Europa, cujo relatório foi divulgado em julho de 2026, estima que 1,6 milhão de crianças vivam hoje sob controle russo nos territórios ocupados. O mesmo documento registra que quase 21 mil crianças haviam sido oficialmente identificadas pela Ucrânia como deportadas ou transferidas à força até o período do levantamento, e que pouco mais de 2,4 mil conseguiram retornar. Para os especialistas da missão, o conjunto das práticas pode configurar crime contra a humanidade na modalidade de perseguição, além de reunir indícios de crimes de guerra.
Até o momento, apenas um veículo cobriu o caso no recorte reunido aqui, o que impede comparar enquadramentos entre lados da imprensa. Essa cobertura de fonte única se apoia em três documentos: o relatório da missão da OSCE, o relatório temático do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos referente ao período de fevereiro de 2022 a dezembro de 2025 e o briefing da Coalizão Internacional para o Retorno das Crianças Ucranianas, iniciativa que reúne mais de 50 países.
Os pontos descritos nos documentos convergem em torno de uma sequência. A deportação seria a porta de entrada: menores são separados das famílias e levados para a Rússia, para Belarus ou para outras áreas ocupadas. Em seguida vêm as medidas administrativas, com alteração de nomes e registros civis, emissão de novos documentos, imposição da cidadania russa e, em determinados casos, entrega a famílias adotivas ou a instituições estatais russas. Investigadores afirmam que Moscou dificulta a localização desses menores ao modificar dados pessoais, transferi-los repetidamente entre regiões e restringir o acesso de organizações internacionais.
A escola aparece como o instrumento que consolida a separação. O relatório do Alto Comissariado conclui que todas as escolas dos territórios ocupados adotam exclusivamente o currículo russo desde o ano letivo de 2022-2023. Livros didáticos ucranianos foram confiscados, plataformas digitais de ensino foram bloqueadas e instituições que mantinham aulas em língua ucraniana receberam prazo para encerrar atividades. Os documentos descrevem ainda cerimônias patrióticas obrigatórias, programas permanentes de educação cívica voltados à exaltação do Estado russo e classes de formação militar desde os primeiros anos escolares, com adolescentes recebendo treinamento em manejo de armas, operação de drones e medicina tática. Famílias que resistem enfrentam pressão administrativa, com ameaça de multas, de perda do poder familiar ou de encaminhamento aos serviços de tutela.
A cobertura registra também uma premissa incomum adotada pela coalizão internacional: devolver fisicamente uma criança não significa devolvê-la ao país. Depois de anos de isolamento, propaganda e ruptura de vínculos familiares, muitas precisariam reconstruir a própria identidade antes de retomar a vida.
O que ainda não se sabe é considerável. Não há resposta oficial do governo russo às acusações no material disponível, nem detalhamento da metodologia usada para chegar às estimativas. Também não está claro quantas das crianças sob controle russo nos territórios ocupados passaram por processos de transferência formal, qual o cronograma e quais os canais concretos de repatriação em curso, nem se há prazo ou instância definida para eventual responsabilização criminal dos envolvidos.