Os Estados Unidos e o Irã firmaram um memorando de entendimento que abre uma janela de 60 dias para negociar questões mais complexas em torno do programa nuclear iraniano. No centro desse acordo provisório está a retomada das inspeções da Agência Internacional de Energia Atômica, a AIEA, órgão fiscalizador ligado à Organização das Nações Unidas. O chefe da agência, o argentino Rafael Grossi, afirmou em coletiva no Japão que o acordo concede acesso aos inspetores e que a verificação precisa acontecer. 'Existe um acordo e, para cumpri-lo, a AIEA terá de ter acesso e realizar inspeções', disse Grossi, acrescentando que espera estar no Irã em breve.
O anúncio veio depois de dias de impasse. Teerã havia indicado que instalações-chave permaneceriam inacessíveis até que um acordo definitivo com Washington fosse alcançado e as sanções, suspensas. O vice-ministro das Relações Exteriores do Irã, Kazem Gharibabadi, chegou a dizer que não havia planos de conceder acesso aos inspetores. Em paralelo, os Estados Unidos suspenderam sanções contra o país por 60 dias e emitiram licença temporária para a produção e venda de petróleo iraniano, um gesto concreto de distensão.
A cobertura de centro, ancorada em despacho de agência, relatou os fatos com paridade: registrou a posição da AIEA, a resistência inicial iraniana e os dados técnicos. A agência estima que o Irã possuía 440,9 quilos de urânio enriquecido a até 60% antes do início do conflito, quantidade que, se enriquecida ainda mais, bastaria para produzir cerca de dez armas nucleares segundo seus próprios critérios. O Irã não informou quanto desse material sobreviveu aos ataques dos Estados Unidos e de Israel, nem onde ele se encontra.
É nesse ponto que as ênfases divergem. Veículos de esquerda tendem a destacar o acordo como triunfo da diplomacia e do multilateralismo sobre a via militar, lembrando que os ataques prévios de Washington e de Israel haviam agravado os riscos à segurança nuclear na região, e lendo a suspensão de sanções como alívio para a população iraniana. Já veículos de direita enfatizam a desconfiança quanto às intenções de Teerã: ressaltam que o regime resistia a abrir suas instalações, que não revelou o paradeiro do urânio e que foi a pressão militar somada às sanções que o levou à mesa de negociação. Nessa leitura, ganha peso a frase de Grossi de que 'intenções não bastam' e que é preciso um sistema de verificação muito robusto.
O episódio também tem desdobramentos institucionais nos próprios Estados Unidos, onde o Senado decidiu limitar novas ações militares contra o Irã, exigindo autorização do Congresso para futuras operações. Isso sinaliza um debate interno sobre os limites do poder do Executivo em conduzir a crise.
O que ainda não se sabe é se o memorando vai resistir aos 60 dias de negociação. Permanece em aberto quando exatamente os inspetores entrarão no país, se os lacres da agência em materiais previamente inspecionados continuam intactos, quanto do urânio enriquecido restou após os bombardeios e qual será o cronograma efetivo de suspensão das sanções. Sem verificação no terreno, a distância entre o que foi anunciado e o que será de fato cumprido segue indefinida.