O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República, passou a semana tentando conter os efeitos de uma crise pública com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, sua madrasta. O atrito começou depois que Michelle divulgou vídeos nas redes sociais relatando ter se sentido desrespeitada e 'apunhalada pelas costas' durante as negociações do PL sobre o apoio à pré-candidatura de Ciro Gomes ao governo do Ceará. A crise, de fundo familiar e eleitoral, ganhou repercussão nacional e expôs divergências sobre os rumos do bolsonarismo às vésperas da campanha de 2026.
A cobertura de centro relatou que Flávio reagiu adotando um tom conciliador. O senador negou ter tido a intenção de ofender a madrasta, defendeu a unidade do campo conservador e fez um convite público para que Michelle participasse de um encontro com mulheres conservadoras, marcado para o dia 1º de julho. Em uma transmissão ao vivo feita de Buenos Aires, após reunião com o presidente argentino Javier Milei, Flávio retomou a chamada 'pauta das mulheres', afirmando que sua preocupação é com as brasileiras, que sustentam mais de 70% dos lares e sofrem com a violência. Veículos de centro também registraram que Michelle deixou de seguir nas redes sociais os irmãos de Flávio, Carlos, Eduardo e Jair Renan, sinal de que o distanciamento persiste.
Veículos de direita enfatizaram o conteúdo econômico e estratégico das falas do pré-candidato. Nessas coberturas, ganharam destaque as propostas de Flávio de promover um 'tesouraço' nos impostos, reduzir a máquina pública e implementar uma reforma tributária 'simplificada e moderna'. O encontro com Milei foi apresentado como sinal de alinhamento com a 'onda de direita' na região e com a defesa da livre iniciativa. Reportagens de bastidores desse campo descreveram o encontro com mulheres conservadoras como um teste da capacidade de Flávio de ampliar alianças e reduzir a resistência do eleitorado feminino, leitura que valoriza a estratégia de composição do senador, mesmo quando envolve antigos adversários.
Veículos de esquerda, por outro lado, leram o episódio como evidência de contradição. Para essa cobertura, a fala de um aliado de Flávio, o influenciador Paulo Figueiredo, de que mulheres 'votam estatisticamente muito mal', sobretudo as solteiras, escancara um machismo estrutural no entorno do bolsonarismo, que trata eleitoras como incapazes ao mesmo tempo em que tenta cortejá-las. Sob essa ótica, a 'pauta das mulheres' de Flávio aparece como discurso oportunista, esvaziado de compromisso real com direitos, e o próprio relato de Michelle, uma das principais lideranças femininas da direita, de ter sido desrespeitada por aliados homens, reforçaria a crítica.
O ponto em que as coberturas convergem é o de que o conflito ultrapassa a disputa pontual no Ceará e revela duas leituras sobre o futuro do bolsonarismo: a linha mais ideológica e fiel ao estilo de Jair Bolsonaro, representada por Michelle, e a aposta de Flávio em ampliar alianças estaduais para viabilizar a candidatura presidencial. Ambos os lados reconhecem o peso do eleitorado feminino e evangélico, segmento no qual Michelle exerce forte influência e onde Flávio enfrenta resistência.
O que ainda não se sabe é se Michelle comparecerá ao encontro de 1º de julho, gesto que seria interpretado como sinal de pacificação, e qual será o real efeito da crise sobre a pré-candidatura de Flávio. Também permanecem sem verificação independente as alegações estatísticas sobre o voto feminino e o alcance concreto das propostas econômicas anunciadas pelo senador.