O plano de governo do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência da República, apresentado em 13 de agosto de 2026, não inclui o fim da escala 6x1 entre as propostas para o mercado de trabalho. O documento, intitulado “Para o Brasil Vencer o Atraso”, não fixa uma nova jornada semanal nem estabelece mudanças específicas no regime de seis dias trabalhados para um de descanso. No lugar disso, adota como diretriz o princípio do “negociado sobre o legislado”, isto é, ampliar o espaço para que empresas e trabalhadores estabeleçam diretamente jornadas e condições de trabalho, respeitados os limites da lei.
A cobertura de centro relatou o conteúdo do programa em detalhe, com citação direta do texto. O documento afirma que pretende “permitir que trabalhador e empresa combinem diretamente as condições de trabalho que funcionam para os dois, dentro da lei, em vez de seguir uma regra única imposta a todos”, e cita como exemplo jornadas adaptadas às necessidades de mães, de jovens e de pessoas com dificuldade de ingressar no mercado. Também descreveu os demais eixos trabalhistas: a promessa de reduzir gradualmente o custo da contratação com carteira assinada, sob o argumento de que manter um trabalhador formal chega a custar aproximadamente o dobro do salário que ele recebe; duas modalidades de contratação com menor custo na folha, uma para jovens de 18 a 24 anos em busca do primeiro emprego e outra para pessoas com 50 anos ou mais desempregadas há pelo menos 12 meses; e um banco nacional de vagas conectado aos departamentos de recursos humanos das empresas. Fora do capítulo trabalhista, o plano propõe transformar a Caixa Econômica Federal no chamado “Banco da Prosperidade”, reunindo crédito, habitação, educação financeira e apoio ao empreendedorismo na estrutura já existente do banco, além do programa voluntário “Ganha-Ganha”, que daria juros menores, crédito facilitado e cashback a quem concluir cursos, formalizar um negócio, conseguir emprego ou manter as contas em dia.
Os dois lados que cobriram o caso convergem no fato central e no contexto legislativo. A discussão sobre a jornada avançou no Congresso Nacional por meio da PEC 221 de 2019: a Câmara dos Deputados aprovou em maio o texto que reduz o limite máximo de 44 para 40 horas semanais e estabelece dois dias de descanso remunerado, com implementação gradual em 14 meses, proposta que ainda depende de aprovação em dois turnos no Senado Federal e que conta com apoio do governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Nenhuma das coberturas afirma que o programa proíba a redução da jornada; ambas registram que ele simplesmente não a propõe.
A divergência aparece no enquadramento. Veículos de esquerda destacaram que a escolha do candidato vai na direção contrária à da maioria da população, apoiando-se em pesquisa Genial/Quaest divulgada em julho segundo a qual 69% dos entrevistados apoiam o fim da escala 6x1 e 22% se opõem, e sublinharam que o programa promete baratear a contratação formal “sem retirar direitos” sem indicar quais encargos seriam reduzidos. Nessa leitura, o “negociado sobre o legislado” desloca para a negociação individual proteções que hoje estão na lei, numa relação assimétrica entre empregador e empregado. A cobertura de centro apresentou a mesma diretriz sem juízo de valor, tratando-a como opção de política econômica e registrando apenas que ela difere da proposta apoiada pelo governo federal. Veículos de direita ainda não haviam publicado análise própria do capítulo trabalhista do plano até o fechamento deste texto; a leitura habitual desse campo enfatiza o custo do emprego formal como barreira de entrada, a informalidade como resultado da rigidez da regra única e a liberdade contratual como forma de ampliar a ocupação, argumentos que o próprio documento do candidato incorpora.
O que ainda não se sabe é o essencial da conta. O programa não nomeia quais encargos seriam cortados para reduzir o custo da contratação, nem estima o impacto fiscal dessa redução sobre a arrecadação previdenciária. Também não há calendário para a votação da PEC 221 no Senado, nem definição de como o princípio do “negociado sobre o legislado” conviveria com a jornada de 40 horas caso a emenda seja promulgada. As regras do programa “Ganha-Ganha”, incluindo quem processaria os dados de pontuação e sob quais salvaguardas, permanecem sem detalhamento no documento divulgado.