Um grupo de mulheres conservadoras que atuam na política brasileira avalia recorrer à Justiça dos Estados Unidos contra brasileiros ligados ao bolsonarismo, acusados de coordenar ataques nas redes sociais. A informação foi revelada pela jornalista Ana Flor, da g1/GloboNews, e repercutiu ao longo dos primeiros dias de julho de 2026. Segundo a apuração, as mulheres afirmam que os autores integram um chamado 'gabinete do ódio' e já reuniram publicações que, na avaliação delas, configurariam crimes de calúnia, difamação e injúria, passíveis de processo também no sistema jurídico americano. Um advogado nos Estados Unidos teria sido consultado para analisar o caso.
A cobertura de centro, representada pela coluna de Ana Flor na g1, relatou os fatos de forma direta: o grupo avalia a ação, cita o influenciador Allan dos Santos, foragido da Justiça brasileira, como um dos nomes envolvidos, e aponta que a mobilização ganhou força após Michelle Bolsonaro divulgar um vídeo em que critica o enteado, o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro. No vídeo, a ex-primeira-dama afirma ser alvo de um grupo que atua a partir do exterior e diz que alguns integrantes aparecem em fotos ao lado do parlamentar. Além de Michelle, os principais alvos dos ataques seriam a senadora Damares Alves e a governadora do Distrito Federal, Celina Leão. As reclamações já teriam chegado ao presidente do PL, Valdemar Costa Neto, e ao próprio Flávio.
Os três relatos convergem na cronologia e nos nomes centrais. A escolha do terreno jurídico americano também é ponto comum: parte das figuras apontadas reside ou atua a partir do exterior, o que, na avaliação das envolvidas, torna a Justiça brasileira insuficiente. Há ainda registro público de cobrança dentro do próprio campo: o deputado Marcos Feliciano publicou no X um recado a Flávio Bolsonaro, pedindo que ele contenha aliados que atacam correligionários, sob risco de perder apoio evangélico.
É no enquadramento que as coberturas divergem. Veículos de esquerda, como o Diário do Centro do Mundo e a Revista Fórum, destacaram o episódio como uma fratura reveladora do bolsonarismo: mulheres que sempre estiveram no campo conservador passam a usar contra os próprios correligionários os instrumentos legais que o movimento costuma ridicularizar quando acionados por adversários. A Fórum ancorou a análise em um levantamento da consultoria Bites, obtido pelo jornal O Globo, segundo o qual um terço das 300 mil menções a Michelle após 27 de junho continha ataques, com termos como 'traidora' e 'feminista' usados como xingamento dentro de um campo que se apresenta como defensor da família tradicional. Essa cobertura enfatiza que a mesma rede de perfis que por anos atacou a esquerda e o centro agora mira mulheres do próprio grupo, sem mudar o método, apenas o alvo, e liga influenciadores como Allan dos Santos e Paulo Figueiredo ao entorno de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.
Uma leitura a partir da direita, por sua vez, tenderia a enfatizar que a ação ainda é hipotética, baseada em apuração de veículos críticos ao bolsonarismo, sem contraditório dos acusados nem base jurídica detalhada. No mérito, argumentaria que se trata de defesa legítima da honra individual de figuras conservadoras contra crimes que ferem a reputação, e de uso dos canais legais, não de censura. A cobrança de Marcos Feliciano e a chegada do tema à cúpula do PL seriam, nessa leitura, sinal de que a própria direita cobra ordem e responsabilidade pessoal de quem dissemina ataques.
O que ainda não se sabe: nenhuma fonte confirma se a ação será de fato ajuizada, em qual foro americano, contra quais réus nominados e com que base legal concreta. Também não há manifestação dos acusados nem do PL nas reportagens, e a extensão do grupo de mulheres envolvidas permanece indefinida.