Os mercados financeiros globais recalcularam nesta terça-feira as chances de o Federal Reserve elevar a taxa básica de juros dos Estados Unidos ainda em julho. Depois que um novo relatório do governo americano mostrou inflação mais fraca do que o esperado no mês passado, operadores reduziram de 35% para cerca de 15% a probabilidade de um aumento de 0,25 ponto percentual na reunião do banco central marcada para os dias 28 e 29 de julho. A aposta para setembro, no entanto, segue firme: cerca de 70% dos investidores ainda esperam um aumento de juros naquele mês, mesmo com o número em queda frente aos mais de 90% registrados antes da divulgação dos dados de inflação.
O cenário ganhou complexidade adicional com a escalada do conflito entre Estados Unidos e Irã. O fechamento do Estreito de Ormuz e a ameaça do presidente Donald Trump de impor tarifas de 20% sobre cargas que cruzarem a passagem levaram o petróleo a subir quase 4%, para US$ 86 o barril, pressionando as expectativas de inflação global. Nesta mesma terça-feira, sai o CPI (índice de preços ao consumidor) de junho nos Estados Unidos, e Kevin Warsh faz sua primeira fala pública como presidente do Federal Reserve ao Congresso americano, sinalizando compromisso com o controle da inflação mesmo que isso signifique contrariar a Casa Branca.
A cobertura de centro relatou os números com precisão: a redução nas apostas de alta de juros em julho é atribuída diretamente aos dados de inflação mais fracos, enquanto a manutenção da expectativa para setembro reflete a incerteza gerada pelo conflito no Oriente Médio. As reportagens também destacaram que os futuros das bolsas americanas abriram sem direção única, com destaque para a alta da Nasdaq, e que o EWZ, fundo que reúne ações brasileiras negociadas em Nova York, tentava se recuperar após a queda do dia anterior.
Veículos de direita enfatizaram o papel institucional de Warsh como um contraponto à pressão política do presidente Trump sobre o Federal Reserve, tratando a disposição do novo presidente do banco central de elevar juros mesmo contra a vontade da Casa Branca como sinal de responsabilidade fiscal e de defesa da autonomia das instituições de controle da inflação. Essa leitura tende a valorizar a independência do Fed como garantia de estabilidade para investidores e empresas.
Veículos de esquerda, por sua vez, tendem a destacar o outro lado da mesma moeda: a pressão política explícita de um presidente sobre o banco central levanta preocupação sobre o risco de captura das instituições públicas por interesses de curto prazo, e o custo real da instabilidade recai sobre trabalhadores e consumidores, que sentem no bolso tanto a alta do petróleo quanto uma eventual alta de juros que encarece crédito e consumo. Esse enquadramento tende a enfatizar a necessidade de proteção social diante da volatilidade gerada por um conflito armado distante, mas com efeitos econômicos concretos no dia a dia das famílias.
O que ainda não se sabe é como o mercado vai reagir ao CPI de junho, divulgado nesta mesma terça-feira, e se o depoimento de Warsh ao Congresso vai de fato alterar a trajetória de juros esperada para setembro. Também não está claro até quando o conflito entre Estados Unidos e Irã vai durar, nem se a ameaça de tarifas sobre cargas no Estreito de Ormuz será colocada em prática, dois fatores que continuam pressionando o preço do petróleo e, por consequência, a inflação global e as decisões do Federal Reserve nos próximos meses.