Um levantamento da Folha de S.Paulo, também repercutido por O Antagonista, mostrou que a Assembleia Legislativa de São Paulo destinou milhões de reais em emendas parlamentares a entidades com vínculos diretos com políticos, algumas delas com histórico de contas rejeitadas por órgãos de controle. O caso mais debatido é o da Associação Desportiva Facex, de Guarulhos, fundada por Alessandra da Silva Santos, ex-candidata que teve as contas eleitorais rejeitadas em 2018 e cuja entidade também teve prestação de contas recusada pelo Tribunal de Contas da União. A Facex recebeu R$ 5,3 milhões em emendas entre 2023 e 2025 e pode receber mais R$ 4,9 milhões neste ano, por indicação do deputado estadual Sebastião Santos, do mesmo partido da fundadora, o Republicanos.
A cobertura de centro, representada pela apuração da Folha, mostra que os deputados estaduais paulistas tiveram à disposição cerca de R$ 6,1 bilhões em emendas nesta legislatura, valor superior à soma do que o governo estadual investiu em educação e segurança pública no mesmo período, R$ 3,5 bilhões. Entidades de artes marciais concentraram R$ 129 milhões em repasses, com destaque para a Confederação Brasileira de Artes Marciais Chinesas, que recebeu mais de R$ 44 milhões, e a Confederação Brasileira de Karatê Interestilos, com R$ 26,9 milhões. Dirigentes dessas entidades reconheceram que os eventos financiados funcionam como vitrine eleitoral para os deputados que indicam os recursos. Do outro lado, a União de Núcleos e Associações de Moradores de Heliópolis, ligada a parlamentares do PT e do PSOL, recebeu R$ 4,9 milhões para projetos de direitos humanos, enquanto o Instituto Paulo Kobayashi, ligado à centro-direita, obteve R$ 38,3 milhões para eventos religiosos. Um dos episódios mais citados envolve um projeto de ciclismo da Facex, cujo plano de trabalho previa a compra de squeezes por R$ 42 cada, valor muito acima do praticado no varejo. A entidade afirmou que o item seria, na verdade, uma garrafa de alumínio personalizada, e atribuiu a diferença a um erro de preenchimento no documento.
Ao interpretar esses números, veículos de esquerda destacaram que a distribuição das emendas reproduz uma desigualdade de acesso a recursos públicos, já que entidades ligadas à direita e ao centro-direita receberam volumes muito superiores aos das organizações voltadas a direitos humanos e causas sociais. Já veículos de direita enfatizaram que os mecanismos de controle institucional já estão em ação, citando a apuração interna aberta pela Secretaria de Esportes sobre o projeto da Facex e a determinação do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo para que o governo amplie a transparência sobre as emendas, atribuindo as irregularidades identificadas a falhas administrativas pontuais, e não a um problema estrutural do mecanismo de emendas em si.
Ainda não está claro se a apuração da Secretaria de Esportes vai resultar em sanções ou devolução de recursos, nem qual será o desfecho concreto da determinação do TCE-SP sobre transparência nas emendas parlamentares. Também não há confirmação pública sobre eventuais mudanças nas regras de indicação de recursos pelos próprios deputados estaduais.