O governo brasileiro criticou formalmente as novas restrições impostas pela União Europeia às importações de produtos siderúrgicos. Em nota conjunta publicada em 1º de julho de 2026, os Ministérios das Relações Exteriores (Itamaraty) e do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) classificaram as medidas europeias como unilaterais e afirmaram que elas reduzem severamente o acesso do aço brasileiro ao mercado do bloco.
As mudanças, anunciadas pela Comissão Europeia, alteram de forma profunda o regime de importação. O volume de aço que pode entrar na União Europeia sem pagamento de tarifas foi reduzido em 47%, passando para um limite anual de 18,3 milhões de toneladas. Quando esse teto for ultrapassado, a tarifa sobre o excedente sobe de 25% para 50%, incidindo sobre 26 categorias de produtos siderúrgicos. Metade das cotas será destinada a países com acordos de livre comércio com o bloco, e a outra metade ficará disponível para os demais parceiros comerciais.
A cobertura de centro, como a do Correio Braziliense, relatou com detalhe que o governo brasileiro se posiciona como uma vítima da sobreoferta global de aço, argumentando que é afetado pelo excesso de produção mundial, mas não é a causa do problema. A mesma cobertura destacou que não houve acordo com a União Europeia sobre as compensações previstas no Artigo XXVIII do Acordo Geral sobre Tarifas Aduaneiras e Comércio, o GATT, e que Brasília considera o novo sistema de cotas uma medida unilateral, imposta sem sua concordância.
Veículos de esquerda, como a CartaCapital em texto da Agência Brasil, enfatizaram o caráter protecionista da decisão europeia e o risco de escalada. Nessa leitura, punir países que não são responsáveis pela sobreoferta global não resolve o problema e pode provocar uma corrida mundial de medidas de defesa comercial. Esses veículos ressaltaram a defesa brasileira por soluções multilaterais em fóruns internacionais e a contradição de as barreiras surgirem logo após a assinatura do acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia.
Veículos de direita, como o R7/Record News, registraram a crítica do Brasil às medidas de forma mais direta, enquadrando o episódio como o fechamento de mercado que atinge os exportadores nacionais e a competitividade do setor produtivo. Nesse ângulo, a resposta passa por negociação firme e pela cobrança das compensações a que o país teria direito.
Há pontos em que todas as coberturas convergem. A União Europeia justifica as medidas como necessárias para proteger sua indústria diante da sobrecapacidade mundial e de práticas de dumping, a venda abaixo do preço de custo. Bruxelas afirma que busca elevar a utilização da capacidade de suas siderúrgicas dos atuais 65% para cerca de 80% e lembra que o setor perdeu cerca de 100 mil empregos desde 2008. As novas regras substituem o sistema de salvaguardas vigente desde 2018 e entram em vigor apenas dois meses após a assinatura do acordo Mercosul-UE.
O que ainda não se sabe é o tamanho concreto do prejuízo para as siderúrgicas brasileiras, já que as coberturas não quantificam a fatia das exportações nacionais destinada ao mercado europeu. Também permanece em aberto o cronograma e o formato das novas negociações que o Itamaraty e o Mdic prometeram continuar em busca de uma solução considerada, nas palavras do governo, aceitável e mutuamente benéfica.