O governo brasileiro criticou formalmente as novas restrições impostas pela União Europeia às importações de produtos siderúrgicos, que entraram em vigor em 1º de julho de 2026. Em nota conjunta, o Ministério das Relações Exteriores e o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços classificaram as medidas como unilaterais e afirmaram que elas reduzem severamente o acesso das exportações brasileiras ao mercado europeu, sem resolver o problema de fundo, que é o excesso de capacidade da indústria mundial do aço.
As mudanças são substanciais. A Comissão Europeia cortou em 47% o volume de aço que pode entrar no bloco sem o pagamento de tarifas, estabelecendo uma cota anual de 18,3 milhões de toneladas. Quando esse teto é ultrapassado, a tarifa sobre o excedente sobe de 25% para 50%, incidindo sobre 26 categorias de produtos siderúrgicos. Metade das cotas será destinada a países com acordos de livre comércio com o bloco, e a outra metade ficará disponível para os demais parceiros comerciais. As novas regras substituem o sistema de salvaguardas que vigorava desde 2018.
A cobertura de centro relatou os números com precisão e deu voz aos dois lados da disputa. De um lado, o governo brasileiro se posiciona como vítima da sobreoferta global, argumentando que não é a causa do problema e que punir países que não o geraram pode provocar uma escalada mundial de medidas de defesa comercial. O Brasil informou que não obteve acordo sobre as compensações previstas no Artigo XXVIII do Acordo Geral sobre Tarifas Aduaneiras e Comércio, o GATT, e defende que a questão seja tratada em fóruns internacionais. De outro lado, a Comissão Europeia justifica as medidas como necessárias para proteger sua indústria diante de práticas de dumping e da pressão da sobrecapacidade global, com a meta de elevar a utilização das siderúrgicas do bloco dos atuais 65% para 80% e preservar empregos, num setor que teria perdido cerca de 100 mil postos de trabalho desde 2008.
Veículos de esquerda enfatizaram a dimensão de justiça no comércio internacional, destacando que economias ricas erguem barreiras enquanto pregam a abertura dos mercados dos países em desenvolvimento, e valorizaram a atuação firme do Estado brasileiro na defesa do interesse nacional e dos empregos da indústria. Veículos de direita, por sua vez, tenderiam a ler o episódio como um teste à competitividade brasileira e à eficácia da diplomacia comercial, questionando por que o país não garantiu as compensações antes da entrada em vigor, mesmo dois meses após a assinatura do acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia, e defendendo a diversificação de mercados. Todos os lados convergem, contudo, no reconhecimento de que a medida reduz o acesso do aço brasileiro ao mercado europeu e de que o governo deve continuar negociando.
O que ainda não se sabe é o impacto quantitativo preciso sobre as siderúrgicas brasileiras e sobre os empregos do setor no Brasil, quais serão os próximos passos concretos das negociações com Bruxelas e se o país conseguirá, de fato, as compensações que reivindica com base no GATT. Também permanece em aberto como outros grandes fornecedores de aço à União Europeia, como Turquia, Coreia do Sul, China e Índia, reagirão às novas regras.