A campanha de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) prepara para 29 de agosto, em Belo Horizonte, o Grande Encontro Nacional de Mulheres com Lula, ato dirigido ao eleitorado feminino com expectativa de reunir cerca de 6.000 participantes entre candidatas, lideranças e apoiadoras de todo o país. Integrantes da coordenação descrevem dois objetivos: apresentar as pautas do petista para as mulheres e desgastar a imagem do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), principal adversário na disputa presidencial, junto a esse segmento. No ato será entregue uma carta compromisso elaborada por lideranças dos partidos da coligação e por representantes de movimentos sociais. A organização está a cargo da secretária nacional de Mulheres do PT, Mazé Morais, com participação da primeira-dama Rosângela da Silva.
O encontro será a segunda agenda do presidente em Minas Gerais em poucos dias. Em 21 de agosto, Lula discursou na Praça da Estação, no centro de Belo Horizonte, ao lado de Patrus Ananias (PT), candidato do partido ao governo do estado, no mesmo local que usou em 2022. O estado é o segundo maior colégio eleitoral do país, atrás apenas de São Paulo, e concentra atenção porque, historicamente, quem vence ali chega à Presidência da República.
Os números que sustentam a estratégia aparecem em duas pesquisas. Levantamento do instituto Quaest divulgado em 14 de agosto apontou Lula com 39% das intenções de voto entre mulheres, contra 28% de Flávio Bolsonaro. Rodada do Datafolha realizada em 18 e 19 de agosto, com 2.058 entrevistados, margem de erro de dois pontos percentuais para o total da amostra e registro no Tribunal Superior Eleitoral, mostrou o presidente com 47% e o senador com 43% em eventual segundo turno. Entre as mulheres, o placar é de 51% a 38% para o petista; entre os homens, de 48% a 43% para o senador, empate técnico. Flávio Bolsonaro lidera com folga entre evangélicos, 62% a 29%, e nas faixas de renda acima de dois salários mínimos.
A cobertura de centro relatou a logística e a agenda do ato, os recortes da pesquisa e as pautas anunciadas, entre elas o enfrentamento do feminicídio, a política de cuidados e o fim da escala 6x1, além da intenção de pressionar o Congresso Nacional a votar o projeto que criminaliza atos de misoginia, parado na Câmara dos Deputados. Veículos de esquerda enfatizaram a dimensão de disputa de projeto e a memória mineira de 2022, quando o Ministério Público do Trabalho em Minas Gerais registrou 812 queixas de assédio eleitoral e o governador Romeu Zema acionou máquina administrativa e prefeitos da Região Metropolitana em favor de Jair Bolsonaro entre o primeiro e o segundo turno, reduzindo de 4,69 para 0,49 ponto percentual a distância no estado. Veículos de direita enfatizaram o cálculo eleitoral e a vulnerabilidade do próprio campo governista: a estratégia de inserções de televisão baseada em apelo emocional e polarização, o chapéu convertido em identidade visual e, sobretudo, os inquéritos que atingem Fábio Luís Lula da Silva por suspeita de tráfico de influência, ao lado da lobista Roberta Luchsinger, ligada a Antônio Carlos Camilo Antunes, preso pela Polícia Federal sob acusação de desviar recursos de aposentadorias. Nessa leitura, também ganha peso o pedido de R$ 134 milhões feito por Flávio Bolsonaro a Daniel Vorcaro, então dono do Banco Master, preso desde novembro de 2025.
Os três blocos de cobertura convergem em pontos concretos: a centralidade de Minas Gerais na conta do segundo turno, a existência de uma diferença consistente de gênero nas pesquisas e o fato de que a propaganda eleitoral gratuita em rádio e televisão começa em 28 de agosto, com estreia do programa presidencial no dia seguinte, exatamente quando ocorre o ato com mulheres.
O que ainda não se sabe é se a mobilização se converte em voto. Não há pesquisa posterior ao ato, nem medição do efeito das inserções de televisão que ainda não estrearam. A campanha de Flávio Bolsonaro não respondeu, nas reportagens disponíveis, às acusações atribuídas a aliados dele sobre mulheres, e as defesas dos citados nos inquéritos também não aparecem. Segue indefinido o desfecho da sucessão estadual mineira, com cenário fragmentado à direita e à esquerda, e não há informação sobre como o governo pretende reverter a resistência do eleitorado evangélico, hoje o segmento de maior desvantagem para o petista.