O senador Flávio Bolsonaro, oficializado no dia 25 como candidato do PL à Presidência da República, passou a acumular duas frentes de desgaste na mesma semana. De um lado, uma representação protocolada no Conselho de Ética do Senado questiona sua conduta durante a convenção do partido. De outro, reportagens investigativas ligam o empresário que ele escolheu para disputar o governo de Minas Gerais ao círculo de negócios do banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, alvo de investigação da Polícia Federal por suspeita de fraude financeira.
Na quarta-feira, 5 de agosto, o senador anunciou o empresário Flávio Roscoe como candidato do PL ao governo mineiro. Roscoe presidiu por quase oito anos a federação das indústrias do estado, de maio de 2018 até abril deste ano, quando deixou o cargo para se filiar ao partido. É esse período que voltou ao centro do debate.
A cobertura de centro relatou o outro flanco em chave estritamente procedimental: um advogado protocolou petição pedindo que o Senado apure se houve violação do Código de Ética por parte do senador, tanto pelo uso de um vídeo do ex-presidente produzido com inteligência artificial durante a convenção quanto por não se opor às falas de convidados estrangeiros que atacaram autoridades brasileiras. O texto registra que caberá à Casa decidir se recebe o pedido e se há elementos para apuração, sem antecipar desfecho.
Veículos de esquerda foram mais longe e reconstruíram uma rede de relações a partir de documentos públicos. Mensagens obtidas com a quebra de sigilo telefônico do banqueiro, no âmbito da comissão parlamentar de inquérito do INSS, revelaram um grupo oficial do conselho estratégico da federação industrial do qual ele participava. Questionada, a entidade confirmou por escrito que o canal é administrado por ela e reúne apenas representantes das empresas do colegiado. A mesma apuração mostra que, em 2022, a federação presidida por Roscoe se tornou uma das principais defensoras de um projeto de mineração na Serra do Curral, em Belo Horizonte, cuja acionista majoritária era, segundo documentos societários divulgados depois, uma empresa controlada por um fundo ligado ao banco.
Essas reportagens acrescentam um componente parlamentar. O senador apresentou emenda a uma medida provisória para retomar trecho vetado da lei de licenciamento ambiental que restringia a responsabilização civil de bancos e fundos por danos de empreendimentos que financiam, tema de interesse direto de setores como mineração e infraestrutura. Em outra frente, o escritório de advocacia do senador emitiu notas fiscais que somam R$ 1,5 milhão para duas empresas ligadas à mesma rede societária. Duas notas, de R$ 500 mil cada, foram canceladas; outra, do mesmo valor, foi emitida para uma contabilidade cujo sócio ocupa cadeiras em empresas do grupo.
Os pontos de convergência entre as coberturas são factuais: a convenção do dia 25, o anúncio do candidato mineiro, a existência do conselho estratégico e a emissão e o cancelamento das notas fiscais. A divergência está no significado atribuído a eles. Veículos de esquerda tratam o conjunto como evidência de captura do processo político por interesse financeiro concentrado, com efeito direto sobre licenciamento ambiental e mineração. Veículos de direita não repercutiram o material até o momento, mas os argumentos disponíveis nos próprios textos apontam a leitura que costuma prevalecer nesse campo: o colegiado citado reúne cerca de cinquenta empresas, tem caráter técnico e consultivo, foi criado antes da gestão do candidato, e o senador afirma que prestou serviço advocatício em relação legal e privada, tendo justamente recusado o trabalho para a empresa sob suspeita.
O que ainda não se sabe é decisivo. Não há definição sobre se o Senado receberá a representação e a encaminhará ao Conselho de Ética. Não está esclarecido se o banqueiro participava pessoalmente das reuniões do colegiado ou apenas do canal de mensagens, e uma ata oficial de março registra a pergunta feita por um representante da sociedade civil sem trazer a resposta da entidade. O candidato anunciado ao governo mineiro não foi ouvido sobre as relações descritas, e a assessoria do senador, o banco, a multinacional citada e o contador não responderam às perguntas enviadas. Nenhuma das apurações demonstra, até agora, ilicitude nos serviços contratados.