O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, voltaram a conversar na noite de terça-feira, 4 de agosto, em um jantar oferecido pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, em sua residência. O encontro foi articulado por Moraes e pelo ministro Cristiano Zanin, também do Supremo, que participou da conversa. Os dois não se falavam havia cerca de três meses e meio, período de forte desgaste entre o Palácio do Planalto e o comando do Senado.
A cobertura de centro relatou o episódio pelo ângulo institucional. Segundo pessoas que acompanharam a conversa, o objetivo foi restabelecer um canal de diálogo entre os dois Poderes, sem discussão de projetos específicos, sem votações combinadas e sem compromisso assumido por qualquer das partes. Ainda de acordo com esses relatos, o tema da sucessão no Supremo não foi tratado diretamente, embora o entendimento entre os participantes seja de que a retomada do contato abre caminho para negociações futuras, inclusive sobre a vaga no tribunal.
Os dois lados da cobertura convergem sobre a origem da ruptura. No fim de abril, o Senado rejeitou a indicação do ministro da Advocacia-Geral da União, Jorge Messias, para uma cadeira no Supremo. O presidente atribuiu a derrota a uma articulação pessoal de Alcolumbre, que defendia outro nome para a vaga, e desde então evitava novas conversas com ele. Também há convergência sobre o efeito prático do impasse: pautas de interesse do governo ficaram retidas no Senado.
Veículos de direita enfatizaram o custo político do episódio para o Planalto e o detalhamento do que foi dito à mesa. Nessa cobertura, Lula perguntou sobre a proposta de emenda à Constituição que acaba com a escala de trabalho 6x1, já aprovada pela Câmara, e ouviu de Alcolumbre que o texto, embora popular, enfrenta oposição de boa parte do empresariado, demanda longa discussão e só poderá ser votado depois da eleição de outubro. O mesmo relato registra que o presidente só aceitou comparecer ao jantar após insistência do ministro das Relações Institucionais e dos líderes do governo e do PT no Senado, e reproduz falas duras do presidente sobre Alcolumbre atribuídas a dois ministros. A leitura embutida nessa cobertura é a de um governo com articulação política frágil, dependente da mediação de ministros do Supremo, e de um Congresso que tende a ficar mais conservador na próxima legislatura.
Veículos de esquerda não registraram cobertura própria do encontro até o momento, o que deixou sem contraponto o ângulo trabalhista da conversa: a proposta que altera a jornada 6x1 aparece nos relatos apenas pela resistência do setor produtivo, sem a posição de sindicatos ou dos trabalhadores diretamente afetados pelo adiamento.
Outro ponto travado no Senado e citado nas reportagens é a proposta que reorganiza o sistema de segurança pública, também aprovada pela Câmara, que prevê o uso de recursos de apostas online e de parcelas do fundo social do pré-sal para financiar ações do setor. Nenhuma das duas matérias deve ser resolvida nas duas semanas de esforço concentrado do Congresso que começam em 10 de agosto.
O que ainda não se sabe é se a reaproximação produz resultado legislativo. Não há data marcada para a nova conversa entre Lula e Alcolumbre, nem definição sobre quando a indicação ao Supremo será reapresentada, embora o presidente já tenha anunciado que pretende repetir o nome de Jorge Messias. Interlocutores do Planalto afirmam que os acertos políticos ficarão para depois das eleições, o que mantém em aberto o destino das propostas retidas e o desfecho da vaga no tribunal.