O senador Cleitinho Azevedo (Republicanos-MG) não disputará o governo de Minas Gerais nas eleições de 2026. O desfecho se deu em duas etapas, em 48 horas. Na tarde de 3 de agosto, o parlamentar apareceu em vídeo divulgado nas redes sociais do partido, ao lado do presidente nacional da legenda, o deputado federal Marcos Pereira, e do presidente estadual, o deputado Euclydes Pettersen, anunciando em lágrimas que abria mão da disputa. Disse que não teria condições emocionais de entrar em campanha depois da morte do irmão mais novo, Matheus Azevedo, em 18 de julho, e pediu perdão aos eleitores mineiros. No dia seguinte, durante a convenção nacional do partido em Brasília, ele voltou atrás, pediu a palavra fora do cronograma e solicitou novamente a indicação. Pereira recusou, alegando que o partido não poderia sustentar uma candidatura com tamanha instabilidade, e declarou o assunto encerrado.
A reviravolta tem uma cronologia que todos os veículos do conjunto reconstroem da mesma forma. O senador vinha adiando a definição desde o início do ano e chegou a pedir prazo até o fim da Copa do Mundo. Em 25 de julho, faltou à convenção estadual do partido, em Belo Horizonte, que definiu as candidaturas para outubro. Em 28 de julho, uma pesquisa de intenção de voto o mostrou na liderança de todos os cenários estimulados de primeiro turno, com percentuais entre 34% e 35%; o levantamento ouviu 1.482 eleitores entre 22 e 26 de julho, com margem de erro de três pontos percentuais. No mesmo dia, o senador publicou um vídeo produzido com inteligência artificial em que versões recriadas digitalmente do pai e do irmão morto o incentivavam a seguir em frente. Em 29 de julho, a direção partidária afirmou em nota que a ausência na convenção representou um fato político objetivo, com consequências inevitáveis, e que faltou ao parlamentar ser candidato de si mesmo. Uma reunião de cinco horas na sexta-feira, 31, terminou sem acordo.
A cobertura de centro concentrou-se nesse encadeamento institucional e no aspecto humano do episódio, reproduzindo na íntegra as falas do senador e dos dirigentes, o registro do choro e o argumento partidário de que o prazo legal das convenções, que se encerra em 5 de agosto, não permitia mais espera. Esses veículos também deram espaço à versão do próprio senador, segundo a qual ele gravou o vídeo de desistência em dúvida e teria tentado impedir sua publicação, sem sucesso.
Veículos de direita organizaram a notícia em torno das consequências para o campo conservador: o senador era considerado a peça central para garantir palanque em Minas ao pré-candidato do PL à Presidência, e a desistência desmonta a costura que envolvia PL, União Brasil e Progressistas em torno de um nome único. Nessa linha, parte da cobertura de direita foi além e afirmou, com base em integrantes não identificados da bancada, que a base do governo federal atuou nos bastidores para impedir a consolidação da candidatura e esvaziar o palanque da oposição no estado, alegação que nenhuma fonte nomeada sustenta e para a qual não houve procura por resposta do governo. Até o momento, veículos de esquerda não publicaram cobertura própria sobre o episódio no conjunto analisado, de modo que não há um enquadramento desse campo a registrar.
O desdobramento imediato é o rearranjo da disputa mineira. Com o impasse, os partidos que negociavam aliança passaram a concentrar as articulações em torno do ex-secretário estadual de Governo Marcelo Aro (PP). Na mesma convenção nacional, o partido oficializou neutralidade na corrida presidencial, decisão que refletiu a posição de 17 diretórios estaduais, contra 9 favoráveis a apoiar o pré-candidato do PL e apenas 1 favorável ao presidente da República. A neutralidade também inviabilizou a indicação da ex-presidente da Caixa Econômica Federal, filiada à legenda, como vice na chapa presidencial da oposição.
Ainda não se sabe quem o partido apoiará no estado, se o senador disputará outro cargo em 2026 e para onde migrarão os cerca de 35% de intenção de voto que ele reunia. Também segue sem comprovação a alegação de interferência do governo federal, e não havia, ao fim da convenção, nova reunião agendada entre o senador e a direção nacional.