Os Estados Unidos revogaram, na terça-feira 4 de agosto de 2026, o visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti. A decisão foi anunciada por um alto funcionário do Departamento de Estado em conversa com jornalistas e, pela justificativa americana, responde à demora do governo brasileiro em conceder o agrément, o aval diplomático formal exigido para que Daniel Perez assuma a embaixada dos Estados Unidos em Brasília.
Washington separou a medida de uma expulsão. Viotti não foi declarada persona non grata e pode permanecer em território americano, ainda que sem visto válido; se deixar o país, precisará pedir novo documento para voltar. O Departamento de Estado condicionou a reversão à concessão do agrément a Perez e afirmou que outras opções diplomáticas seguem em aberto. Na noite do mesmo dia, o governo brasileiro divulgou nota chamando as justificativas americanas de falsas, afirmando que a decisão integra uma escalada deliberada de medidas hostis e acusando os Estados Unidos de tentar interferir na eleição presidencial de outubro.
A cobertura de centro reconstituiu o encadeamento dos fatos. A indicação de Perez, deputado estadual da Flórida e filho de imigrantes cubanos, foi anunciada publicamente em 1º de junho, antes de o pedido formal de agrément chegar a Brasília, o que inverte a praxe consagrada na Convenção de Viena e causou incômodo no Itamaraty. Semanas depois ele foi sabatinado por uma comissão do Senado americano. Em 24 de julho, o Itamaraty negou vistos a dois funcionários do Departamento de Estado que viriam ao Brasil tratar de integridade eleitoral, liberdade religiosa e liberdade de expressão; segundo a imprensa americana, os dois integravam uma estratégia para questionar a confiabilidade das urnas, o que o governo dos Estados Unidos nega. Os Estados Unidos estão sem embaixador em Brasília desde janeiro de 2025.
Veículos de esquerda enquadraram a revogação como chantagem. Nessa leitura, o visto de uma diplomata de carreira foi transformado em instrumento de pressão direta sobre o Planalto, num movimento voltado a desestabilizar a eleição brasileira. Essa cobertura deu destaque à nota oficial do governo, ao anúncio de que o Brasil adotaria medidas de reciprocidade e ao fato de que sanções individuais contra autoridades brasileiras, incluindo ministros do Supremo Tribunal Federal, seguem em vigor.
Veículos de direita enfatizaram o outro lado da cadeia causal. Para essa cobertura, o gatilho foi a decisão brasileira de negar vistos aos dois funcionários americanos e de segurar o agrément até depois do segundo turno, uma escolha de calendário eleitoral com custo diplomático previsível. Esses textos também detalharam o efeito prático da perda do visto diplomático, sustentando que um embaixador não pode seguir exercendo funções sem o documento que autorizou sua entrada, e registraram o desgaste acumulado da relação bilateral, das tarifas sobre produtos brasileiros à classificação do Primeiro Comando da Capital e do Comando Vermelho como organizações terroristas pelos Estados Unidos.
Na quarta-feira 5, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva chamou a medida de irresponsável e impensada, cobrou respeito na relação bilateral e observou que os Estados Unidos passaram mais de um ano sem enviar embaixador ao Brasil. Afirmou que orientou o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, a não marcar encontros com embaixadores de nenhum país até o fim da eleição e declarou que o Brasil enfrentará qualquer tentativa de interferência externa no processo eleitoral.
Restam pontos em aberto. Não há definição sobre a forma concreta da reciprocidade brasileira, dificultada pelo fato de a missão americana em Brasília ser chefiada por uma encarregada de negócios, cargo de status inferior ao de embaixador. Não há prazo divulgado para uma eventual saída de Viotti, e as coberturas divergem sobre se ela pode continuar exercendo suas funções sem visto válido. Também não está claro se a indicação de Perez já passou pelo plenário do Senado americano nem quais seriam as novas medidas que o Departamento de Estado diz não descartar.