Marine Le Pen, líder da ultradireita francesa, confirmou nesta terça-feira que será candidata à eleição presidencial de abril de 2027, horas depois de a Corte de Apelação de Paris manter sua condenação por desvio de recursos do Parlamento Europeu. O tribunal considerou provado que, entre 2004 e 2016, Le Pen e outros integrantes de seu partido usaram cerca de 1,4 milhão de euros destinados a assessores parlamentares europeus para bancar funcionários que, na prática, trabalhavam para a legenda na França. A pena final ficou em três anos de prisão, dois deles suspensos, e um ano em regime aberto com uso de tornozeleira eletrônica. Ao mesmo tempo, os desembargadores reduziram o período de inelegibilidade, de cinco anos para 45 meses, com 30 suspensos, e, como Le Pen já cumpriu a maior parte dos 15 meses restantes desde a condenação de 2025, o caminho para a candidatura ficou aberto.
A cobertura de centro relatou os fatos do processo com ênfase nos números da sentença e no calendário eleitoral: a decisão manteve a culpa, mas afrouxou a pena que impediria a candidatura, e Le Pen anunciou à emissora TF1 que recorrerá mais uma vez, agora à Corte de Cassação, a mais alta instância criminal da França, buscando reverter tanto a condenação quanto a obrigação da tornozeleira. Já veículos de esquerda destacaram a dimensão do esquema de desvio de verba pública, ocorrido ao longo de 12 anos, e o fato de uma candidata condenada por corrupção seguir na liderança das pesquisas de intenção de voto, com mais de 30% do eleitorado francês, à frente de rivais em um cenário no qual o atual presidente Emmanuel Macron não pode concorrer à reeleição. Para esse lado, o episódio reforça a tese de que representantes eleitos devem responder à Justiça nos mesmos termos que qualquer cidadão, independentemente de sua popularidade eleitoral.
Na ausência de cobertura direta de veículos de direita sobre este caso específico, é provável que esse espectro reproduza o argumento levantado pelos próprios aliados de Le Pen durante o processo: o de que o Judiciário estaria interferindo numa disputa democrática ao impor restrições a uma candidata popular, e que o direito ao recurso e ao duplo grau de jurisdição deve ser respeitado até o fim antes de qualquer punição definitiva. Esse lado tende a valorizar o fato de que a pena foi ajustada, e não anulada, como sinal de que as instituições seguiram o rito legal sem bloquear a disputa eleitoral.
Le Pen já disputou três eleições presidenciais, avançando ao segundo turno em 2017 e 2022, sempre derrotada por Macron. Nesta terça, ela também afirmou que, se eleita, indicará seu aliado Jordan Bardella, de 30 anos, para o cargo de primeiro-ministro. O que ainda não se sabe é como a Corte de Cassação decidirá o novo recurso antes da eleição de abril de 2027, nem se a obrigação da tornozeleira eletrônica será suspensa enquanto o processo tramita, fatores que podem afetar diretamente a capacidade de Le Pen de fazer campanha em escala nacional.