O deputado estadual Daniel Perez, de 39 anos, presidente da Câmara dos Representantes da Flórida, é o nome indicado pelo governo dos Estados Unidos para ocupar a embaixada americana em Brasília, posto vago desde janeiro de 2025. A indicação, anunciada no início de junho, já passou pela Comissão de Relações Exteriores do Senado americano, por 13 votos a 8, mas ainda depende do plenário e, sobretudo, do agrément, a autorização formal que o país anfitrião concede ao embaixador estrangeiro, prevista na Convenção de Viena de 1961. O Brasil não concedeu esse aval até agora, e a demora virou o estopim de uma nova crise diplomática: nesta terça-feira, 4 de agosto, Washington revogou o visto da embaixadora brasileira nos Estados Unidos, Maria Luiza Ribeiro Viotti.
Os três blocos de cobertura convergem no essencial. Perez é filho de imigrantes cubanos, nasceu em Nova York, cresceu na Flórida e está no quarto mandato consecutivo como deputado estadual, com saída obrigatória em novembro por limite de tempo no cargo. É filiado ao Partido Republicano e alinhado ao presidente americano. Todos os relatos registram que o Departamento de Estado apresentou a revogação do visto como resposta direta à demora brasileira, com a ressalva de que a medida não equivale a expulsão e de que o documento pode ser restabelecido caso o aval seja concedido. Há convergência também sobre a alegação americana de que as autoridades brasileiras sinalizaram conceder a autorização apenas depois das eleições presidenciais de outubro.
A partir daí, os enquadramentos se separam. Veículos de esquerda enfatizaram o caráter político da escolha: relataram que o próprio indicado admitiu conhecer pouco a realidade brasileira, tendo visitado o país uma única vez há quase duas décadas, e que a lealdade ideológica ao movimento nacionalista americano teria sido decisiva. Essa cobertura ouviu uma deputada democrata da Flórida, para quem cargos de embaixador vêm sendo usados como recompensa a aliados, e um cientista político que aponta que a indicação foi feita fora do protocolo, sem consulta prévia ao governo brasileiro. O mesmo material lembra que, no primeiro mandato do atual presidente americano, um embaixador nomeado para a Alemanha declarou publicamente querer influenciar a política interna do país anfitrião, e cita como pano de fundo disputas concretas entre os dois países: minerais críticos, regulação das big techs e da inteligência artificial.
A cobertura de centro manteve o registro factual e cronológico. Descreveu o perfil do indicado, o rito de confirmação no Senado americano, a vacância do posto e o passo a passo da retaliação do visto, sem atribuir intenção às partes e registrando que o Itamaraty não havia se manifestado até o fechamento da reportagem.
Veículos de direita destacaram a trajetória e as posições do indicado como credenciais: formação jurídica, defesa de redução de impostos, menor intervenção do Estado e investimento em segurança pública, além do histórico de embates com o governador da Flórida em temas como imigração, ensino superior e regulação da inteligência artificial. Esse enquadramento apresenta o adiamento do agrément como decisão do governo brasileiro em meio às tensões abertas pelo tarifaço e sublinha o alinhamento do indicado com a política externa americana para a região, incluindo o apoio a mudanças no regime cubano e a operações contra o narcotráfico.
O que ainda não se sabe é quando o plenário do Senado americano vai apreciar o nome, já que não há data marcada, e se o governo brasileiro manterá o aval suspenso até depois de outubro. Também não está esclarecida a resposta formal do Itamaraty à revogação do visto, nem quais serão os efeitos práticos sobre o trabalho da embaixadora brasileira em Washington, que segue no país sem documento válido.