Os Estados Unidos revogaram na terça-feira, 4 de agosto de 2026, o visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti, no episódio mais grave da deterioração recente das relações entre os dois países. Segundo autoridades do Departamento de Estado que falaram a jornalistas sob anonimato, a medida é uma resposta recíproca a duas ações do governo brasileiro: a demora em conceder o agrément, autorização diplomática necessária para que um embaixador estrangeiro assuma o posto, ao republicano Daniel Perez, indicado por Donald Trump em 1º de junho para chefiar a embaixada em Brasília, e a negativa de vistos a dois funcionários americanos que pretendiam vir ao país no fim de julho.
Toda a cobertura converge em um conjunto de fatos. A revogação não equivale a expulsão: Viotti pode permanecer em território americano, mas, se sair, precisará de novo visto para retornar. Washington afirmou que a decisão será revertida assim que o Brasil conceder a anuência ao indicado. O governo brasileiro reagiu no mesmo dia com nota da Secretaria de Comunicação Social da Presidência, na qual classifica as duas justificativas americanas como falsas, lembra que a Convenção de Viena não fixa prazo para a concessão do agrément e sustenta que o pedido segue em análise. Na quarta-feira, 5, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva chamou a decisão de irresponsável e impensada, cobrou respeito a 203 anos de relação diplomática e anunciou que não receberá embaixadores de nenhum país até as eleições de outubro.
Veículos de esquerda destacaram o eixo da soberania. Nessa cobertura, o gesto americano aparece como parte de uma escalada deliberada de medidas hostis, de motivação ideológica, destinada a pressionar o Brasil em plena disputa eleitoral. Diplomatas ouvidos pelo governo e citados nessas matérias descrevem a decisão como chantagem e sem precedentes, e uma delas registra que um opositor brasileiro esteve na Casa Branca horas antes do anúncio, com a ressalva de que não há evidências públicas ligando a visita à medida. Essa cobertura também informa que o Planalto se reuniria para desenhar uma resposta de reciprocidade, complicada pelo fato de os Estados Unidos não terem hoje um embaixador em Brasília, apenas uma encarregada de negócios interina.
Veículos de direita enfatizaram a responsabilidade do governo brasileiro pelo impasse. Nessa leitura, adiar o agrément por conveniência eleitoral e barrar dois funcionários do Departamento de Estado criou uma situação que tornava a retaliação previsível, e a revogação do visto é lida como recado direto de que Washington não aceitaria uma indefinição sem prazo. Essa cobertura também dá espaço às críticas da oposição, que atribui a crise à condução da diplomacia pelo governo, e ao custo econômico do atrito, em um quadro em que quase metade das exportações brasileiras aos Estados Unidos já está sujeita a alguma tarifa adicional desde julho.
A cobertura de centro concentrou-se no procedimento e nos efeitos práticos. Relatou o rito pendente de confirmação do indicado americano pelo plenário do Senado dos Estados Unidos, explicou que o agrément costuma ser uma formalidade e apurou que a embaixadora ficou em uma espécie de limbo: como não foi declarada persona non grata, não tem prazo para deixar o país, mas permanece com um visto anulado e sem clareza sobre o exercício pleno de suas funções. Também registrou, com espaço equivalente, as manifestações de opositores e de parlamentares governistas.
O que ainda não se sabe é qual será a medida de reciprocidade adotada pelo Brasil e se ela atingirá vistos de representantes americanos. Não há definição sobre quando o pedido de agrément será apreciado, nem confirmação de que novas revogações de vistos de autoridades brasileiras estão em preparação, embora um interlocutor da oposição em Washington afirme que a hipótese não foi descartada. Tampouco está esclarecido se Viotti poderá exercer normalmente as funções diplomáticas sem visto válido, nem qual será o efeito prático da decisão de suspender a recepção de embaixadores estrangeiros até outubro.