O ex-chefe de gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, admitiu ter recebido R$ 249 mil da empresária Roberta Luchsinger, investigada pela Polícia Federal e amiga de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho mais velho do presidente. Em nota, o assessor afirmou que a transferência foi um empréstimo pessoal já quitado e que jamais manteve relação que caracterizasse ilegalidade no exercício da função. Ele acrescentou que seus sigilos bancário e fiscal estão à disposição da Justiça. Marcola deixou a chefia de gabinete em 21 de julho para integrar a equipe de campanha do presidente à reeleição, e Lula decidiu, por ora, mantê-lo no time.
A cobertura converge nos elementos centrais do caso. A existência da transação foi citada pela Polícia Federal no pedido de abertura de inquérito para apurar suspeita de tráfico de influência envolvendo Lulinha no Ministério da Saúde e no Palácio do Planalto. Uma das hipóteses sob apuração é se o pagamento teria sido propina para abrir portas no governo. Roberta Luchsinger é sócia de uma consultoria e disse à Polícia Federal, em maio, que apresentou Lulinha ao lobista Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, apontado como operador central do esquema que descontou mais de R$ 6 bilhões de beneficiários do INSS entre 2019 e 2024. Dois inquéritos sobre o filho do presidente já foram distribuídos ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, e um terceiro pedido foi encaminhado ao ministro Flávio Dino. A defesa de Lulinha nega qualquer irregularidade e pediu providências contra o que chama de vazamentos reiterados e seletivos.
A cobertura de centro organizou o episódio pelo custo eleitoral e pela decisão do presidente. Foram esses textos que trouxeram o valor exato da transferência, o relato de que Lula soube do caso há menos de duas semanas e a informação, apurada junto a integrantes do núcleo da campanha, de que o assessor só sairia da equipe se ele próprio quisesse. Registraram ainda que o presidente disse a aliados defender que todos os fatos sejam investigados e que, na eleição, quer separar seus atos dos de pessoas próximas. Também descreveram o peso do cargo que Marcola ocupava: responsável pela agenda presidencial e um dos poucos canais de acesso a um presidente que não usa telefone celular.
Veículos de direita enfatizaram a trilha investigativa e o acesso à máquina pública. Foi nessa cobertura que apareceram os registros de mais de 40 entradas da empresária em órgãos federais entre 2023 e 2025 sem constar das agendas oficiais, incluindo o Ministério da Saúde e o gabinete de um ministro, além de mensagens em que ela acertava com o operador do esquema ações para abrir portas no governo federal. Esses textos posicionaram no alto a hipótese de propina levantada pela Polícia Federal e deram destaque à cobrança de adversários. O principal nome da oposição na disputa presidencial questionou publicamente a origem do dinheiro e sugeriu tratar-se de recurso de aposentados. Outros dois pré-candidatos ao Planalto afirmaram que o caso aproxima o escândalo do entorno imediato do presidente, e um candidato a senador, ex-procurador da força-tarefa da Lava Jato, pediu que o Supremo investigue a operação financeira.
Nenhum veículo de esquerda do conjunto analisado cobriu o episódio até o momento. A leitura provável desse campo, com base nos mesmos fatos, sustentaria que empréstimo entre particulares, quitado e assumido publicamente, não é ilícito por si, que nenhuma decisão de governo foi apontada como contrapartida e que a entrega voluntária de sigilos indica disposição de esclarecer. Esse enquadramento também tenderia a questionar o ritmo de revelações fatiadas em plena campanha e a lembrar que as vítimas do esquema de descontos são os beneficiários do INSS.
Pontos relevantes seguem em aberto. Não há decisão sobre a abertura do terceiro inquérito. Não se sabe qual era a finalidade declarada do empréstimo além da menção a uma questão familiar, nem por que a quitação só teria ocorrido neste ano, depois de a empresária virar alvo da Polícia Federal. Também não foi divulgada a documentação bancária que o assessor afirma possuir, e não há definição sobre quanto tempo ele permanecerá na equipe de campanha.