A disputa presidencial de 2026 ganhou um novo eixo de atrito nesta semana, com o candidato do PSD à Presidência, Ronaldo Caiado, atacando ao mesmo tempo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, e o senador Flávio Bolsonaro, do PL. Em sabatina realizada na terça-feira, 4 de agosto, promovida por uma empresa de educação executiva em parceria com um portal de notícias, o ex-governador de Goiás afirmou que um quarto mandato do petista seria um governo “Dilma 2 piorado” e disse que o senador está mais preocupado em salvar os escândalos da própria família do que em salvar o País.
Caiado recorreu a dois casos conhecidos para marcar distância dos dois adversários. “Vocês já me viram em rachadinha? Vocês já me viram em mensalão?”, perguntou, ao prometer governar com autoridade moral. O candidato disse ainda que pretende realizar ajuste fiscal “cortando na carne”, citou medidas adotadas durante sua gestão em Goiás e sustentou que a confiança dos mercados exige do próximo presidente sinais de responsabilidade fiscal. Também foram sabatinados, em separado, Romeu Zema, Renan Santos e o próprio Flávio Bolsonaro. Lula foi convidado e não compareceu.
O episódio se encaixa num arco que começou dois dias antes. No domingo, 2 de agosto, Lula oficializou sua candidatura à reeleição em convenção realizada em São Paulo. No mesmo dia, em João Pessoa, o candidato do PL discursou na convenção estadual do partido e afirmou que “o Nordeste é a solução do Brasil”, lembrando o desempenho de Jair Bolsonaro na região em 2018. Ali, prometeu garantir o Bolsa Família, ainda que tenha dito que o programa não deve ser “o final do caminho”, e defendeu a geração de empregos de qualidade. O evento oficializou a candidatura de Efraim Filho ao governo da Paraíba, tendo como vice a advogada Nayana Pontes.
A cobertura de centro relatou os dois eventos de forma factual e acrescentou o contraponto documental ao aceno do candidato do PL: em 2006, quando era deputado estadual no Rio de Janeiro, ele havia criticado o Bolsa Família da tribuna, chamando-o de estímulo para casais terem mais filhos, e o pai também atacava o programa antes de ampliá-lo na Presidência. Essa cobertura registrou ainda as críticas do candidato ao Desenrola, programa federal de renegociação de dívidas, ancoradas em levantamento da Confederação Nacional do Comércio segundo o qual 80,9% das famílias brasileiras declararam ter alguma dívida em abril deste ano, além da promessa de pena mínima de oito anos para o furto de celular.
Já os veículos de direita concentraram o foco na sabatina e no argumento da integridade pessoal como critério de escolha, dando destaque ao ataque cruzado do candidato do PSD e à defesa do ajuste fiscal como condição de previsibilidade econômica. Até o momento, nenhum veículo de esquerda cobriu o episódio no material reunido, de modo que não há registro do enquadramento que esse campo daria aos fatos, nem resposta publicada do PT ou do PL às acusações.
As divergências de cobertura ficam menos na descrição dos fatos e mais na seleção do que merece destaque. Onde uma reportagem enfatiza a distância entre o discurso atual e o histórico do candidato sobre programas sociais, a outra enfatiza a acusação de escândalo familiar e a agenda de responsabilidade fiscal. Nenhuma das matérias contesta o que foi dito nos palanques.
Restam pontos em aberto. Não há resposta pública do PL às declarações do candidato do PSD, nem do PT à comparação com o segundo governo Dilma. Também não estão detalhados quais gastos seriam cortados no ajuste fiscal prometido, como a manutenção do Bolsa Família se conciliaria com esse corte, nem qual seria o desenho da mudança na legislação penal defendida em palanque. As pesquisas de intenção de voto citadas na sabatina não tiveram números divulgados nas matérias, o que impede aferir o peso de cada candidatura nesse momento da corrida.