O dólar voltou a subir e superou a marca de R$ 5,20 na quarta-feira, atingindo a maior cotação desde março. Na véspera, a moeda americana já havia fechado em alta de 0,87%, a R$ 5,1859, o maior valor de fechamento desde 30 de março, quando chegou a R$ 5,2461 em meio à guerra no Oriente Médio. Apesar do avanço recente, no acumulado do ano o dólar ainda registra queda de 5,52% frente ao real.
A cobertura de centro relatou que o movimento teve dois motores principais. O primeiro foi externo: uma sessão de fuga do risco nos mercados globais, com investidores vendendo ações em Wall Street e comprando dólar e títulos do governo americano. Com isso, a moeda americana se valorizou ante quase todas as divisas de países emergentes, incluindo o real, o peso mexicano, o peso chileno e o rand sul-africano. O segundo motor foi interno: a leitura da ata do último encontro do Comitê de Política Monetária, o Copom, do Banco Central.
Na semana passada, o Copom cortou a taxa básica de juros, a Selic, em 0,25 ponto, para 14,25% ao ano. A ata reiterou que a projeção de inflação para o quarto trimestre de 2027 está em 3,7%, acima do centro da meta de 3%. O Banco Central avaliou que atingir exatamente os 3% exigiria ajustes agressivos da Selic, e por isso julgou mais adequadas trajetórias com momentos de pausa e retomada de cortes, com a inflação convergindo para a meta no primeiro trimestre de 2028. Para os mercados, isso reforçou a percepção de que há pouca chance de novas altas de juros no Brasil e espaço para mais cortes.
É nesse ponto que a cobertura se divide. Veículos de esquerda destacaram que a alta do dólar reflete sobretudo um movimento global de aversão ao risco, fora do controle do país, e não uma deterioração dos fundamentos internos, lembrando que no ano o real ainda se valorizou. Para esse campo, a sinalização de novos cortes da Selic é um alívio bem-vindo de uma política monetária que vinha penalizando crescimento e emprego, e a atuação do Banco Central com swap cambial mostra o papel do Estado em estabilizar o mercado. Já a leitura de direita tende a enfatizar a fragilidade de uma economia dependente de juros altos: com a inflação projetada ainda acima da meta, a abertura para cortes pressiona o câmbio e reacende dúvidas sobre o compromisso do Banco Central com a estabilidade de preços, ao mesmo tempo em que a queda do diferencial de juros reduz a atratividade do Brasil para o capital estrangeiro.
Na prática, os dois lados convergem no diagnóstico técnico. O diferencial entre os juros brasileiros e os de economias como Estados Unidos e Japão vinha atraindo investimentos e segurando o dólar em patamares mais baixos. Agora, com o Federal Reserve sinalizando juros possivelmente mais elevados nos Estados Unidos e o Banco Central preparando o terreno para novos cortes, esse diferencial tende a cair, o que pressiona a moeda. No fim da manhã de terça, o Banco Central vendeu 50 mil contratos de swap cambial para a rolagem do vencimento de 1º de julho. O dólar oscilou em alta durante todo o dia, entre R$ 5,1593 e R$ 5,1932.
O que ainda não se sabe é o ritmo concreto dos próximos passos da Selic, se haverá pausa ou novo corte na reunião seguinte, e até onde a fuga do risco global vai durar. Também segue em aberto como o Banco Central vai equilibrar a meta de inflação ainda não cumprida com a pressão por estímulo à atividade.