A família Bolsonaro abriu duas frentes simultâneas de pressão contra o governo Lula nesta semana, uma em Washington e outra no Tribunal de Contas da União. As duas iniciativas compartilham um pano de fundo comum: a disputa pela narrativa econômica e política às vésperas do ano eleitoral de 2026.
Nos Estados Unidos, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro e o jornalista Paulo Figueiredo se reuniram, nos dias 22 e 23 de junho, com parlamentares republicanos e assessores do presidente Donald Trump. Segundo aliados, a dupla pediu que o governo americano não confirme o chamado tarifaço, argumentando que o presidente Lula estaria, na expressão deles, 'cavando' a medida para depois acusar os Estados Unidos. Para sustentar a tese, citaram gestos recentes de Lula: críticas públicas a Trump, a ausência de representante brasileiro em uma audiência pública sobre o tema em 6 de junho e a emissão de títulos públicos em moeda chinesa.
No Brasil, o senador Rogério Marinho, coordenador-geral da pré-campanha de Flávio Bolsonaro à Presidência, protocolou uma representação no Tribunal de Contas da União. O documento pede que a Corte apure os gastos do governo federal com publicidade em 2026. Segundo a representação, o governo já teria consumido R$ 785 milhões, valor que superaria em quase 30% o teto legal de R$ 618,1 milhões previsto para o semestre de ano eleitoral. A pré-campanha destaca em especial a campanha 'Tempo com a Família', em defesa do fim da escala de trabalho 6x1, que teria custado cerca de R$ 80 milhões, embora a pauta ainda dependa de aprovação no Congresso.
A cobertura de centro relatou os dois episódios em registro factual, atribuindo às fontes a alegação de que Lula provocaria o tarifaço e reproduzindo o teor da representação ao TCU sem endossá-los. Esse mesmo material noticioso registra que a Justiça Federal já havia determinado, em 16 de junho, a suspensão de anúncios pagos do governo em defesa do fim da escala 6x1, atendendo a pedido do deputado Carlos Jordy.
Veículos de direita enfatizaram o ângulo do controle do gasto público e do suposto uso eleitoral de recursos federais. Nessa leitura, o governo Lula teria estourado o teto legal de publicidade e usado dinheiro público para promover uma pauta ainda não aprovada pelo Congresso, conduta que a Justiça Federal já teria reconhecido ao mandar suspender os anúncios. A cobertura desse campo lembra ainda o precedente de 2019, quando o TCU suspendeu peça publicitária do governo de Jair Bolsonaro sobre o pacote anticrime, sob argumento semelhante.
Veículos de esquerda tendem a ler os mesmos fatos pela ótica do interesse nacional e dos direitos trabalhistas. Sob esse prisma, pedir a uma potência estrangeira que mantenha tarifas capazes de penalizar exportadores e trabalhadores brasileiros serve a um cálculo político-eleitoral, e a ofensiva no TCU buscaria silenciar a comunicação pública sobre o fim da escala 6x1, pauta de proteção a quem cumpre jornadas exaustivas. A narrativa de que Lula 'provoca' o tarifaço, nessa leitura, transfere ao governo a responsabilidade por uma medida imposta de fora.
O que ainda não se sabe é a resposta oficial do governo Lula às duas acusações, ausente das matérias, assim como o desfecho da representação no TCU e a decisão final dos Estados Unidos sobre o tarifaço. Também permanece em aberto o real impacto econômico que a medida tarifária teria sobre setores exportadores brasileiros.